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Testes especiais do tornozelo e do pé: tabela de referência (e as regras de Ottawa)

Tabela dos testes especiais do tornozelo e do pé — gaveta anterior, estresse em inversão, squeeze, Kleiger, Thompson, Windlass, Mulder e o teste de dorsiflexão em descarga — mais as regras de Ottawa para decidir quando a imagem se justifica.

O paciente chega mancando, com o tornozelo edemaciado desde o jogo de ontem, e conta que pisou em falso. Antes de pensar em qual ligamento foi, existe uma pergunta que não dá para deixar para a próxima sessão: isso aqui pode ser uma fratura?

Essa é a diferença entre o exame do tornozelo e o de outras articulações. No ombro ou no quadril, os testes especiais refinam a hipótese. No tornozelo traumático, a primeira decisão é de triagem — e só depois dela os testes ligamentares fazem sentido.

Esta é a tabela de referência dos testes do tornozelo e do pé para consultar durante o atendimento: começa pela triagem de fratura e segue por complexo lateral, sindesmose, Aquiles, fáscia plantar e nervos.

Primeiro: as regras de Ottawa

As regras de Ottawa são critérios clínicos para decidir quando a radiografia se justifica depois de um trauma agudo. São duas séries independentes — uma para o tornozelo, outra para o pé — e cada uma exige que haja dor na região correspondente mais pelo menos um dos achados da lista.

SérieExige dor emE pelo menos um destes
TornozeloZona maleolarDor óssea nos 6 cm distais da borda posterior ou da ponta do maléolo lateral; ou o mesmo no maléolo medial; ou incapacidade de dar quatro passos logo após o trauma e no momento da avaliação
Região do médio-péDor óssea na base do quinto metatarso; ou dor óssea no navicular; ou a mesma incapacidade de descarga

Dois detalhes de execução mudam o resultado. A palpação é da borda posterior dos maléolos, não da face anterior — a dor de partes moles do ligamento fica à frente e não conta como critério ósseo. E os quatro passos são passos mesmo, com transferência de peso: mancar conta, saltitar apoiado na parede não.

Como interpretar (e o erro comum)

A sensibilidade agrupada das regras de Ottawa gira em torno de 98%, com especificidade baixa — na casa dos 30% na mediana dos estudos.

Essa combinação define o uso. A alta sensibilidade significa que um resultado negativo é bastante confiável para afastar fratura clinicamente relevante, e é aí que está o valor prático. A especificidade baixa significa o contrário: um resultado positivo não diz que há fratura, diz apenas que a imagem se justifica. Confundir as duas coisas produz tanto o encaminhamento alarmado quanto a frustração de quem recebe a radiografia normal de volta e conclui que “o teste não serve”.

As regras também têm fronteiras. Foram construídas e validadas em adultos com trauma agudo, e o desempenho cai fora desse cenário: intoxicação, lesão distratora em outro segmento, déficit sensitivo, edema volumoso que impede palpação confiável e apresentação tardia são situações em que o julgamento clínico vale mais do que o algoritmo. Em criança pequena, o uso pede cautela adicional.

A competência para solicitar exames complementares é reconhecida ao fisioterapeuta, o que coloca essa decisão dentro do seu escopo — e com ela a responsabilidade de saber quando a imagem acrescenta e quando não acrescenta nada.

Complexo ligamentar lateral

É a lesão mais frequente do tornozelo, e a inversão com flexão plantar atinge primeiro o talofibular anterior.

TesteComo fazerPositivo quando
Gaveta anterior do tornozeloPaciente sentado, joelho fletido, tornozelo em 10° a 20° de flexão plantar. Estabilize a tíbia distal com uma mão e traga o calcâneo para frente com a outraTranslação anterior aumentada em relação ao lado contralateral, com parada final frouxa; pode surgir uma depressão na região anterolateral
Estresse em inversão (talar tilt)Tornozelo em posição neutra, estabilizando a perna; aplique inversão do retropéAbertura articular maior que a do lado sadio — sugere envolvimento do calcaneofibular além do talofibular anterior
Palpação dirigidaPercorra separadamente talofibular anterior, calcaneofibular e a base do quinto metatarsoDor localizada em um feixe específico, o que ajuda a graduar a lesão depois de afastada a fratura

Nos três, o parâmetro é sempre a comparação com o lado oposto. Frouxidão bilateral simétrica costuma ser característica individual, não lesão.

Sindesmose

A entorse alta é menos comum e muito mais cara em tempo de reabilitação. Reconhecê-la na primeira avaliação muda o prognóstico que você comunica.

TesteComo fazerPositivo quando
Squeeze testComprima tíbia e fíbula uma contra a outra no terço médio da perna, longe do tornozeloDor referida na região da sindesmose distal, e não no ponto comprimido
Rotação externa (Kleiger)Joelho a 90°, tornozelo neutro; estabilize a perna e rode o pé externamenteDor na sindesmose anterolateral; dor medial sugere lesão do ligamento deltoide
Palpação da sindesmose anteriorPalpe o espaço tibiofibular anterior, logo acima da interlinhaDor localizada, frequentemente com extensão proximal ao longo da membrana interóssea

Quando dois desses testes são positivos e a dor sobe pela perna, trate o caso como entorse alta até prova em contrário — e avise o paciente sobre o prazo, que é bem maior do que o da entorse lateral comum. O resto da progressão está detalhado na conduta fase a fase da entorse.

Tendão de Aquiles

TesteComo fazerPositivo quando
Thompson (Simmonds)Decúbito ventral, pés pendentes fora da maca; comprima o ventre da panturrilhaAusência de flexão plantar passiva — sugere ruptura completa
MatlesDecúbito ventral; peça flexão ativa do joelho até 90° e observe a posição do péO pé perde o equino de repouso e cai para neutro ou dorsiflexão
Palpação do trajetoPercorra o tendão do calcâneo até a junção miotendíneaFalha palpável no contorno, geralmente alguns centímetros acima da inserção

Ruptura completa não é caso de reabilitação imediata no consultório: é encaminhamento. Os três testes somados levam menos de um minuto, e é boa prática aplicar mais de um — edema e hematoma podem mascarar o achado isolado.

Fáscia plantar, nervos e antepé

TesteComo fazerPositivo quando
WindlassEm descarga, com o antepé na borda de um degrau, estenda passivamente o háluxDor reproduzida na região medial do calcâneo ou ao longo da fáscia — pouco sensível, mas bastante específico
Tinel retromaleolar medialPercuta atrás do maléolo medial, sobre o trajeto do nervo tibialParestesia irradiada para a planta do pé, sugerindo síndrome do túnel do tarso
Compressão do túnel do tarsoMantenha pressão sustentada na mesma região por até 30 segundosReprodução de dor em queimação ou formigamento distal
MulderComprima o antepé transversalmente enquanto pressiona o espaço intermetatarsalClique palpável acompanhado de dor ou choque irradiado para os dedos — sugere neuroma de Morton

Dor no calcanhar que piora aos primeiros passos da manhã com Windlass positivo tem um caminho de conduta bem estabelecido, descrito na conduta da fascite plantar. Dor no calcanhar com Tinel positivo é outra história e não responde ao mesmo protocolo.

O teste que quase ninguém faz

O teste do avanço em descarga mede dorsiflexão com carga — que é a dorsiflexão que o paciente de fato usa para andar, descer escada, agachar e correr, e que não aparece na goniometria em maca.

Execução: o paciente fica de frente para a parede, avança um pé e flexiona o joelho tentando tocá-lo na parede, mantendo o calcanhar no chão. Mede-se a distância entre o hálux e a parede. Valores em torno de 9 a 10 cm são comuns em adultos assintomáticos, mas o dado clinicamente útil é a diferença entre os lados: uma assimetria consistente sinaliza restrição que vai atrapalhar a reabilitação inteira, e costuma persistir muito depois de a dor do entorse ter passado.

Esse número também é um dos melhores para acompanhar ao longo do tratamento, porque é objetivo, barato e reprodutível — características que divide com a goniometria convencional e com as escalas de medida funcional.

Como registrar

Um teste especial só vale na reavaliação se você conseguir repetir exatamente o que fez. Isso significa registrar quatro coisas: o teste, o lado, o resultado e o achado específico.

“Gaveta anterior positiva à direita, com aumento de translação e parada final frouxa; squeeze negativo; avanço em descarga 6 cm à direita contra 9,5 cm à esquerda” é um registro que, seis semanas depois, mostra progresso ou estagnação sem depender da sua memória. “Tornozelo instável e rígido” não mostra nada — e, se esse prontuário for lido por outra pessoa ou sustentar um relatório, a diferença entre as duas frases fica evidente.

Os achados entram na avaliação inicial e as medidas repetíveis voltam nas reavaliações, junto com o registro sessão a sessão da conduta, no mesmo padrão do método SOAP.


No Clinvo, o resultado dos testes fica na avaliação do paciente e as medidas de cada reavaliação ficam nas evoluções em sequência — então, na sessão em que o paciente diz que já está bom, você abre o histórico e mostra os centímetros de dorsiflexão que ainda faltam. Teste grátis por 14 dias, sem cartão de crédito.

Perguntas frequentes

Quais são os principais testes especiais do tornozelo?
Os mais usados são a gaveta anterior do tornozelo (ligamento talofibular anterior), o estresse em inversão ou talar tilt (talofibular anterior mais calcaneofibular), o squeeze test e o teste de rotação externa de Kleiger (sindesmose), o teste de Thompson e o de Matles (integridade do tendão de Aquiles), o Windlass (fáscia plantar), o Tinel retromaleolar medial (túnel do tarso) e o teste de Mulder (neuroma de Morton). O teste do avanço em descarga completa o conjunto, medindo a dorsiflexão com carga.
O que são as regras de Ottawa para o tornozelo?
São critérios clínicos que indicam quando a radiografia se justifica após trauma agudo de tornozelo ou pé. Para a série do tornozelo: dor na zona maleolar somada a dor óssea à palpação nos 6 cm distais da borda posterior ou da ponta de um dos maléolos, ou incapacidade de dar quatro passos logo após o trauma e no momento da avaliação. Para a série do pé: dor na região do médio-pé somada a dor óssea no navicular ou na base do quinto metatarso, ou a mesma incapacidade de descarga. A sensibilidade agrupada fica em torno de 98%, com especificidade baixa — por isso elas servem para descartar fratura, não para confirmá-la.
Como fazer o teste de Thompson?
Com o paciente em decúbito ventral e o pé pendente para fora da maca, comprima o ventre da panturrilha. Em um tendão de Aquiles íntegro, a compressão produz flexão plantar passiva do pé. Quando essa resposta não aparece, o teste é positivo e sugere ruptura completa do tendão. Vale combinar com o teste de Matles — flexão ativa do joelho a 90° em decúbito ventral, observando se o pé perde o equino de repouso — e com a palpação em busca de falha no trajeto do tendão.
Qual teste avalia a dorsiflexão do tornozelo com carga?
O teste do avanço em descarga, também chamado de weight-bearing lunge test. O paciente fica de frente para a parede, avança um pé e tenta tocar o joelho na parede mantendo o calcanhar no chão; mede-se a distância entre o hálux e a parede. Valores em torno de 9 a 10 cm são comuns em adultos assintomáticos, mas o dado que mais importa na prática é a diferença entre os lados, porque restrição de dorsiflexão em carga aparece em entorse, fascite plantar, dor femoropatelar e alteração de marcha.

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