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Plano de negócio para clínica de fisioterapia: o modelo do Sebrae preenchido com números de clínica

O roteiro do Sebrae tem oito seções e serve para qualquer negócio — por isso trava quando você tenta aplicá-lo a uma clínica. Veja como preencher cada seção com capacidade de agenda, taxa de falta, ponto de equilíbrio com pró-labore e três cenários de ocupação.

Você decidiu abrir a clínica, pesquisou “plano de negócio” e chegou ao roteiro do Sebrae — que é, de longe, o material mais completo e mais usado no Brasil para isso. Baixou a planilha, abriu o documento e travou na terceira seção.

Não é falta de disciplina. O roteiro do Sebrae foi escrito para servir a qualquer negócio: padaria, loja de roupa, oficina, software. Quando ele pede “capacidade produtiva”, a padaria responde em pães por dia e a oficina em carros por semana. A clínica de fisioterapia responde em quê? Quando ele pede “estimativa de faturamento”, a loja projeta ticket médio vezes número de clientes. E a clínica, que vende hora de agenda de um profissional que não se multiplica?

Este artigo é o roteiro do Sebrae preenchido com a realidade de uma clínica. Mesma estrutura, mesmas oito seções — só que com os números que decidem se o mês fecha no azul: capacidade de agenda, taxa de falta e rampa de ocupação. Nenhum dos três aparece no modelo genérico, e são justamente os três que mais derrubam projeção de clínica nova.

As oito seções do modelo do Sebrae, traduzidas para clínica

O roteiro oficial se divide em oito partes. A tabela abaixo mostra o que cada uma pede e o que muda quando o negócio é uma clínica de fisioterapia.

Seção do SebraeO que ela pedeO que muda numa clínica
Sumário executivoResumo do negócio, dos sócios, forma jurídica e enquadramento tributárioEntram o registro de pessoa jurídica no CREFITO e o responsável técnico — sem eles a clínica não pode atender
Análise de mercadoClientes, concorrentes e fornecedores”Cliente” é quem paga, que nem sempre é quem trata; concorrente não disputa só preço, disputa horário disponível
Plano de marketingProdutos, preço, canais e localizaçãoOs serviços são sessão avulsa, pacote e avaliação; o canal decisivo costuma ser busca local e indicação
Plano operacionalLayout, processos, pessoal e capacidade produtivaCapacidade produtiva é agenda: sessões por dia, por sala, por profissional
Plano financeiroInvestimento, custos, resultado, ponto de equilíbrio e retornoCusto variável por sessão é baixo e custo fixo é alto — o que faz do ponto de equilíbrio o número central
Construção de cenáriosSimulação pessimista, realista e otimistaA variável que se simula é a taxa de ocupação da agenda, não o preço
Avaliação estratégicaMatriz F.O.F.A. (forças, oportunidades, fraquezas, ameaças)A ameaça mais concreta não é a clínica vizinha: é depender de uma única fonte de encaminhamento
Avaliação do planoDecisão final sobre a viabilidadeA pergunta honesta é se o cenário pessimista sobrevive aos seis primeiros meses

Vale dizer o que o Sebrae faz bem e o que ele não faz. O roteiro, a planilha e o curso online são gratuitos e disciplinam o raciocínio — obrigam você a escrever coisas que evitaria pensar. O que ele não entrega são os parâmetros do seu setor. Esses você precisa levantar, e é o que vem a seguir.

Seção 1 — Sumário executivo (escreva por último)

O sumário executivo é o resumo do plano inteiro: o que é a clínica, quem são os responsáveis, qual a forma jurídica, o enquadramento tributário e o capital investido. Ele abre o documento, mas só faz sentido escrever depois que as outras sete seções existirem.

Três decisões desta seção são específicas da fisioterapia e não podem ser preenchidas no chute:

Seção 2 — Análise de mercado

O modelo pede clientes, concorrentes e fornecedores. Traduzindo:

Clientes. Descreva por fonte de pagamento, não por perfil demográfico genérico. Particular, convênio, encaminhamento médico, empresa. Cada fonte tem prazo de recebimento e volume diferentes, e é isso que importa para o fluxo de caixa. Se você pretende atender convênio, escreva no plano quantos dias leva para receber — porque o custo da sessão você paga no mesmo dia.

Concorrentes. A tentação é montar uma tabela de preços das clínicas da região. Faça isso, mas registre também o que de fato disputa paciente: quantos horários eles têm livres na semana que vem, se atendem no começo da manhã e no fim da tarde, quanto tempo demoram para responder uma mensagem. Boa parte da concorrência em fisioterapia se decide em disponibilidade, não em preço.

Fornecedores. Numa clínica a lista costuma ser curta: material de consumo, equipamentos, contador, lavanderia ou enxoval, sistema de gestão e o próprio aluguel. Anote quais são mensais e fixos, porque eles reaparecem inteiros na seção financeira.

Seção 3 — Plano de marketing

Aqui entram serviços, preço, canais e localização.

Nos serviços, descreva as modalidades comerciais e não só as técnicas: avaliação inicial, sessão avulsa, pacote de sessões, atendimento domiciliar. Pacote muda o caixa — entra dinheiro adiantado que corresponde a atendimento ainda não prestado — e por isso precisa aparecer no plano com regra de validade e de devolução definida desde o começo.

No preço, o plano de negócio quer o número e o raciocínio por trás dele. Definir preço olhando só para a concorrência é o erro mais comum, porque a estrutura de custo do vizinho não é a sua.

Na localização, o modelo genérico pensa em fluxo de rua. Para clínica, o que pesa é estacionamento, acesso para paciente com dificuldade de locomoção e, principalmente, se o ponto atende às exigências da vigilância sanitária — item que derruba projeto depois da reforma pronta.

Nos canais, seja específico e realista quanto a prazo. Busca local e ficha do Google Meu Negócio levam semanas até produzir agendamento; indicação de médico e de paciente antigo é mais lenta ainda para construir, e mais estável depois. É por isso que a rampa de ocupação existe — e ela precisa estar no plano financeiro, não só na sua cabeça.

Seção 4 — Plano operacional: capacidade é agenda

Esta é a seção onde o modelo genérico mais atrapalha, e onde está a maior contribuição que um plano de clínica pode ter.

A capacidade máxima de uma clínica de fisioterapia é:

(horas de atendimento por dia ÷ duração da sessão) × dias úteis do mês × número de salas ou profissionais

Um exemplo de clínica de uma sala e um profissional: 6 horas de atendimento por dia — as outras duas vão para avaliação, evolução, retorno de mensagem e gestão —, sessões de 50 minutos com intervalo, 22 dias úteis.

6 sessões por dia × 22 dias = 132 sessões por mês. Esse é o teto físico. Nenhuma projeção de faturamento pode passar dele sem aumentar sala, profissional ou horário de funcionamento.

Só que ninguém opera no teto. Duas correções entram em seguida:

  • Taxa de ocupação — quanto da agenda disponível está de fato preenchido. Clínica nova começa entre 30% e 50% e sobe.
  • Taxa de falta — o percentual de sessões marcadas que não acontecem. Em fisioterapia, tratamento longo com sessões frequentes, a falta pesa mais do que em consulta pontual, e é o indicador que mais silenciosamente corrói a receita.

Com 75% de ocupação e 11% de falta: 132 × 0,75 = 99 sessões agendadas; 99 × 0,89 = 88 sessões realizadas. É esse 88 que entra na projeção de faturamento — não o 132.

Seção 5 — Plano financeiro

O plano financeiro do Sebrae pede investimento total, capital de giro, estimativa de faturamento, custos fixos e variáveis, demonstrativo de resultado, ponto de equilíbrio, lucratividade, rentabilidade e prazo de retorno do investimento. Vamos preencher todos com o exemplo da clínica de uma sala, sessão a R$ 120.

Investimento total

O modelo separa em três blocos, e a separação é útil:

BlocoO que entraExemplo
Investimentos fixosMaca, mobiliário, equipamentos, computador, reforma leveR$ 14.000
Investimentos pré-operacionaisAbertura de CNPJ, registro de PJ no CREFITO, alvarás, identidade visual, honorários iniciaisR$ 3.000
Capital de giroReserva para operar enquanto a agenda encheR$ 13.000
TotalR$ 30.000

A conta detalhada de cada linha está no artigo sobre custo de abrir clínica. O que interessa aqui é o terceiro bloco, o mais ignorado: capital de giro não é sobra, é o dinheiro que paga aluguel e pró-labore nos meses em que a agenda ainda está em 40%.

Custos fixos e variáveis

Custo fixo mensalValor
Aluguel da salaR$ 1.800
Condomínio, energia, água e limpezaR$ 400
ContadorR$ 300
Internet e telefoneR$ 150
Sistema de gestãoR$ 90
Marketing e presença digitalR$ 300
TotalR$ 3.040
Custo variável por sessão de R$ 120Valor
Material de consumoR$ 5,00
Taxa de maquininha ou meio de pagamento (3%)R$ 3,60
Imposto sobre a receita (6%)R$ 7,20
Total~R$ 16

A distinção importa mais do que parece. Se a clínica tiver profissional contratado com repasse por atendimento, o repasse é custo variável — sobe e desce com o volume. Já o seu pró-labore é fixo, porque a conta de casa não cai quando a agenda esvazia.

A margem de contribuição é o que sobra de cada sessão para pagar a estrutura: R$ 120 − R$ 16 = R$ 104. É um número alto, típico de serviço, e explica por que clínica quebra por agenda vazia e quase nunca por margem apertada. Para refinar essa conta rateando também o custo fixo, o método está detalhado aqui.

Ponto de equilíbrio — com você dentro

Ponto de equilíbrio = custo fixo ÷ margem de contribuição por sessão

Só a estrutura: R$ 3.040 ÷ R$ 104 = 30 sessões por mês. Parece confortável.

Agora inclua um pró-labore de R$ 5.000, que é o motivo de você estar abrindo a clínica: (R$ 3.040 + R$ 5.000) ÷ R$ 104 = 78 sessões por mês.

Trinta e setenta e oito são planos de negócio diferentes. O primeiro responde se a clínica se paga; o segundo responde se você consegue viver dela. Quase todo plano que vira frustração no sexto mês parou no primeiro número. Para testar variações de preço e custo rapidamente, a calculadora de ponto de equilíbrio faz essa conta, e este artigo destrincha a lógica.

Demonstrativo de resultado do cenário realista

LinhaValor
Receita (88 sessões × R$ 120)R$ 10.560
(−) Custos variáveis (88 × R$ 16)R$ 1.408
(=) Margem de contribuiçãoR$ 9.152
(−) Custos fixosR$ 3.040
(−) Pró-laboreR$ 5.000
(=) Resultado do mêsR$ 1.112

Daí saem os três indicadores que o roteiro pede no fim:

  • Lucratividade = R$ 1.112 ÷ R$ 10.560 = 10,5% da receita
  • Rentabilidade = R$ 1.112 ÷ R$ 30.000 investidos = 3,7% ao mês
  • Prazo de retorno = R$ 30.000 ÷ R$ 1.112 = 27 meses

Vinte e sete meses assusta à primeira vista. Repare, porém, que o pró-labore de R$ 5.000 já está pago dentro dessa conta: o retorno se refere ao que sobra depois do seu salário. É uma leitura muito mais honesta do que a projeção que deixa o pró-labore de fora e anuncia retorno em seis meses.

Seção 6 — Construção de cenários

O Sebrae pede simulação pessimista e otimista. Na clínica, a variável que se simula é a ocupação da agenda — não o preço, que você controla, nem o custo, que varia pouco.

CenárioOcupaçãoFaltaSessõesReceitaResultado do mês
Pessimista55%14%63R$ 7.560−R$ 1.488
Realista75%11%88R$ 10.560R$ 1.112
Otimista90%8%110R$ 13.200R$ 3.400

O cenário otimista devolve o investimento em cerca de nove meses. O pessimista consome R$ 1.488 do caixa por mês — e é exatamente para ele que serve o capital de giro. Com R$ 13.000 de reserva, a clínica atravessa esse cenário por bastante tempo sem sufoco; sem reserva, o quarto mês vira empréstimo.

Perceba também o que a tabela diz sobre faltas: entre o cenário pessimista e o otimista há 6 pontos percentuais de diferença na taxa de falta, e sozinhos eles valem alguns milhares de reais por ano. É o argumento mais direto a favor de confirmar sessão com antecedência.

Seção 7 — Avaliação estratégica (matriz F.O.F.A.)

A matriz F.O.F.A. cruza forças e fraquezas internas com oportunidades e ameaças externas. Preenchida com honestidade para uma clínica nova, costuma ficar assim:

AjudaAtrapalha
InternoEspecialização definida, agenda flexível em horários que clínica grande não abre, atendimento direto do donoO fisioterapeuta é a operação inteira: adoeceu, a receita para. Sem experiência prévia em gestão
ExternoEncaminhamento médico da região, procura crescente por atendimento particular, bairro sem clínica da sua especialidadeDependência de uma única fonte de encaminhamento, entrada de clínica maior na região, sazonalidade de férias

A fraqueza da primeira linha e a ameaça da segunda são as duas que mais aparecem em clínica de fisioterapia — e nenhuma se resolve com marketing. A primeira se resolve com processo escrito e, mais adiante, com um segundo profissional. A segunda, diversificando as fontes de paciente antes que a única existente pare de encaminhar.

Seção 8 — Avaliação do plano

A pergunta final não é “o plano fecha?”. Praticamente todo plano fecha no cenário realista, porque quem o escreveu escolheu os números. As perguntas úteis são outras três:

  1. O cenário pessimista sobrevive seis meses? Se a reserva não cobre meio ano do pior caso, o plano ainda não está pronto — ou o investimento inicial precisa encolher.
  2. O ponto de equilíbrio com pró-labore cabe na capacidade? No exemplo, 78 sessões contra teto de 132 é folgado. Se o equilíbrio desse 125, a clínica só se pagaria com a agenda quase cheia o tempo todo, o que não acontece.
  3. A rampa está no papel? Ocupação de 75% não aparece no mês um. Escreva mês a mês: 35%, 45%, 55%, 65%, 75%. É essa sequência que dimensiona o capital de giro.

Os quatro erros que derrubam plano de clínica

Projetar faturamento por meta. “Quero faturar R$ 15 mil” antes de saber que o teto da sala é R$ 15.840 com agenda 100% cheia e nenhuma falta. A ordem correta é capacidade primeiro, meta depois.

Ignorar a falta. Uma taxa de 12% sobre 99 sessões agendadas são 12 sessões perdidas por mês — quase R$ 1.500 num preço de R$ 120, com o custo fixo correndo igual.

Deixar o pró-labore fora do custo. É o que transforma um plano deficitário em plano lucrativo no papel. Se você precisa de R$ 5.000 por mês, eles são custo da operação.

Esquecer a rampa. O plano projeta o mês estabilizado e o caixa vive os meses de subida. Todo dinheiro que falta nesse intervalo sai do capital de giro — que, por isso, não é um número redondo escolhido por conforto, e sim a soma dos déficits mensais até a clínica cruzar o ponto de equilíbrio.

Depois do plano vem o acompanhamento

Um plano de negócio só vale alguma coisa se, seis meses depois, alguém comparar o que foi projetado com o que aconteceu. Ocupação real contra ocupação projetada. Taxa de falta real contra a estimada. Receita do mês contra a linha da planilha.

Essa comparação é chata de fazer no caderno e impossível de fazer de memória — mas é o conjunto de indicadores que separa clínica gerida de clínica improvisada, e vale a pena começar já no primeiro mês, junto com o controle de fluxo de caixa.


No Clinvo, a agenda registra o que foi marcado, o que foi atendido e o que virou falta, e o financeiro acompanha cada cobrança e cada recebimento — então os relatórios respondem, em poucos cliques, se a ocupação e a taxa de falta que você escreveu no plano são as que a clínica está vivendo. Teste grátis por 14 dias, sem cartão de crédito.

Perguntas frequentes

O modelo de plano de negócio do Sebrae serve para clínica de fisioterapia?
Serve como esqueleto, não como formulário pronto. As oito seções do roteiro do Sebrae (sumário executivo, análise de mercado, plano de marketing, plano operacional, plano financeiro, construção de cenários, avaliação estratégica e avaliação do plano) valem para qualquer negócio. O que não vem no modelo é o que decide o resultado de uma clínica: capacidade de agenda em sessões por mês, taxa de falta e a rampa de ocupação dos primeiros meses. Sem esses três números, o plano financeiro fica bonito e errado.
Quais são as seções do plano de negócio do Sebrae?
São oito: sumário executivo (resumo escrito por último), análise de mercado (clientes, concorrentes e fornecedores), plano de marketing (serviços, preço, canais e localização), plano operacional (layout, processos, pessoal e capacidade produtiva), plano financeiro (investimento total, capital de giro, faturamento estimado, custos fixos e variáveis, demonstrativo de resultado, ponto de equilíbrio, lucratividade, rentabilidade e prazo de retorno), construção de cenários, avaliação estratégica com a matriz F.O.F.A. e avaliação final do plano. O Sebrae disponibiliza planilha e curso online gratuito no portal.
Como calcular a capacidade produtiva de uma clínica de fisioterapia no plano de negócio?
Multiplique as horas de atendimento por dia pela quantidade de sessões que cabem em cada hora e depois pelos dias úteis do mês. Isso dá a capacidade máxima — por exemplo, 6 sessões por dia em 22 dias úteis são 132 sessões por mês, por profissional e por sala. Em cima disso aplique a taxa de ocupação esperada e desconte a taxa de falta. Com 75% de ocupação e 11% de falta, as 132 viram 88 sessões realizadas. É esse número, e não a capacidade máxima, que entra na projeção de faturamento.
O pró-labore entra no ponto de equilíbrio da clínica?
Deve entrar, e é aí que a maioria dos planos engana o próprio autor. Com custo fixo de R$ 3.040 e margem de contribuição de R$ 104 por sessão, o ponto de equilíbrio da estrutura é de 30 sessões por mês. Incluindo um pró-labore de R$ 5.000, ele salta para 78 sessões. A primeira conta responde se a clínica se paga; só a segunda responde se você consegue viver dela.

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