Você atende em sala alugada faz dois anos. A agenda está cheia, o aluguel da sala compartilhada subiu de novo, e a ideia de abrir um espaço próprio voltou — agora com força. Aí você abre uma planilha em branco e percebe que não sabe por onde começar.
O problema não é falta de informação na internet. É excesso de informação desorganizada. Um site fala de R$ 50 mil, outro de R$ 8 mil, um terceiro lista 47 itens sem prioridade. Você fecha o navegador sem saber se R$ 25 mil que separou serve ou não.
Esse artigo é a planilha que ninguém entrega organizada. Custos divididos por categoria, faixas reais de 2026, o que entra antes do primeiro paciente e o que pode esperar a clínica gerar caixa.
Custos não negociáveis: o que precisa estar pago antes de atender
São cinco frentes. Sem nenhuma delas você não consegue (legalmente) receber o primeiro paciente.
1. CNPJ e formalização da empresa
Abrir o CNPJ como ME, SAS ou LTDA custa pouco — entre R$ 200 e R$ 800 para o registro na Junta Comercial mais a emissão do CNPJ. Contador costuma cobrar R$ 300 a R$ 800 de honorário pontual para abrir a empresa.
Fisioterapeuta não pode ser MEI — categoria vedada pelo COFFITO. A escolha real é entre PF com Carnê-Leão ou abrir PJ.
Quem opta por permanecer pessoa física pula esse passo, mas ainda assim precisa de inscrição como contribuinte de ISS na prefeitura se for emitir nota fiscal.
2. Registro de pessoa jurídica no CREFITO
Valores válidos para 2026 (fixados pelo COFFITO, iguais em todos os CREFITOs):
| Item | Valor 2026 |
|---|---|
| Taxa de inscrição de pessoa jurídica | R$ 307 |
| Anuidade PJ (proporcional aos meses restantes, primeira inscrição) | até R$ 577 (com 50% de desconto) |
| Certificado de registro de pessoa jurídica | R$ 99 |
| Total mínimo | ~R$ 500 a R$ 700 |
A inscrição PJ é obrigatória para qualquer clínica — o CREFITO fiscaliza e multa estabelecimentos atendendo sem registro. O responsável técnico precisa ser um fisioterapeuta com inscrição PF ativa (você mesmo, se for atender).
3. Alvará de funcionamento da prefeitura
Documento que autoriza a empresa a operar no endereço. Custa entre R$ 200 e R$ 1.200 dependendo da cidade e do porte. Em cidades grandes é processo digital razoavelmente rápido; em algumas cidades menores ainda exige protocolo presencial e leva semanas.
4. Alvará sanitário (vigilância sanitária)
Esse é o que mais derruba projeto de clínica. Custa de R$ 300 a R$ 2.500 dependendo do município, mas o valor é o de menos — o que importa é que a vigilância exige requisitos mínimos de estrutura:
- Sala de atendimento com metragem mínima (geralmente 6m² ou mais, varia por município)
- Pia com torneira de acionamento sem as mãos (pedal, cotovelo ou sensor)
- Lixeira com tampa de acionamento sem as mãos
- Ventilação natural ou mecânica adequada
- Local separado para guarda de material de limpeza
- Esterilização ou descarte adequado de material que entra em contato com paciente
Se você reforma sem consultar a vigilância antes, corre risco de ter que refazer pia e bancada depois. Faça uma consulta prévia presencial na vigilância sanitária do seu município antes de fechar o projeto da reforma. É gratuito e te economiza milhares de reais em retrabalho.
5. Inscrição municipal e cadastro de contribuinte de ISS
Para emitir nota fiscal você precisa do cadastro municipal, mesmo com CNPJ ativo na Receita Federal. Esse cadastro costuma ser gratuito ou taxa simbólica (até R$ 150), mas em muitas cidades o processo é burocrático o suficiente para travar quem não está esperando.
Subtotal não negociável: R$ 1.500 a R$ 5.000, dependendo da cidade e da complexidade do alvará sanitário.
Custos de estrutura física: onde a planilha estoura
Aqui entra a maior variação — e é onde a decisão de “começar enxuto” vs “começar bem montado” faz diferença real.
O ponto: sua maior decisão
Aluguel comercial: R$ 1.500 a R$ 6.000/mês em capitais para sala de 25-40m². Em cidades médias, R$ 800 a R$ 2.500. Calcule 3 meses de garantia + 1º mês adiantado — então prepare 4 vezes o valor do aluguel já no investimento inicial.
Reforma e adequação: o item mais traiçoeiro. Reforma leve (pintura, ajuste de elétrica, instalação de pias adequadas) sai por R$ 5.000 a R$ 15.000. Reforma com divisória de drywall para criar 2 salas, troca de piso e ar-condicionado vai para R$ 15.000 a R$ 40.000.
Regra prática: orce a reforma e adicione 30%. Ela sempre passa do orçamento inicial.
Mobiliário e equipamento mínimo
Para começar atendendo fisioterapia ortopédica/traumatológica numa sala:
| Item | Faixa de preço |
|---|---|
| Maca fixa ou regulável | R$ 600 a R$ 2.500 |
| Cadeira para paciente e acompanhante | R$ 400 a R$ 1.500 |
| Mesa de escritório + cadeira para o profissional | R$ 600 a R$ 2.000 |
| Armário para material | R$ 400 a R$ 1.500 |
| Material básico (faixa elástica, bola, halteres leves, theraband, swiss ball) | R$ 800 a R$ 2.500 |
| Kit goniômetro, fita métrica, esfigmo, estetoscópio | R$ 400 a R$ 1.200 |
| Computador ou notebook + impressora | R$ 2.500 a R$ 6.000 |
| Decoração mínima e identidade visual | R$ 500 a R$ 2.000 |
| Subtotal | R$ 6.000 a R$ 19.000 |
Equipamentos mais caros — ultrassom terapêutico (R$ 2.500 a R$ 8.000), eletroestimulador (R$ 1.500 a R$ 5.000), aparelho de TENS (R$ 800 a R$ 3.000), laser terapêutico (R$ 4.000 a R$ 15.000) — entram conforme a especialidade. Não precisa comprar tudo no primeiro mês. Compre conforme a demanda real aparecer.
Custos recorrentes que entram no mês 1 (e você precisa caixa pra cobrir)
Isso é o que mais quebra clínica nova. O investimento inicial fechou redondo, mas o caixa do mês 1 não fecha porque a agenda ainda está incompleta. Calcule pelo menos 3 meses de custo fixo já reservados antes de abrir.
- Aluguel + condomínio + IPTU: a maior linha
- Energia, água, internet: R$ 300 a R$ 800/mês
- Contador mensal: R$ 200 a R$ 600/mês
- Sistema de gestão (agenda, prontuário, financeiro): R$ 39 a R$ 149/mês
- Material de consumo (luva, álcool, papel toalha): R$ 100 a R$ 300/mês
- Marketing digital (Google Meu Negócio é grátis, mas Ads custa): R$ 200 a R$ 800/mês se decidir investir
- Limpeza terceirizada (se não for fazer): R$ 300 a R$ 800/mês
Soma de custo fixo mensal de uma clínica modesta em capital: R$ 3.500 a R$ 6.000. Multiplique por 3 — esse é o caixa de segurança que precisa existir antes de abrir.
A ordem que evita queimar dinheiro
Erro clássico: gastar primeiro com reforma e identidade visual, e descobrir no fim que a vigilância sanitária exige mudança estrutural. Ou abrir o CNPJ e descobrir 2 meses depois que o ponto que você queria não tem zoneamento comercial.
Ordem que funciona:
- Validar o ponto antes de fechar contrato. Confirmar zoneamento comercial na prefeitura, checar se o imóvel comporta exigências da vigilância sanitária, conferir vizinhança comercial (movimento, concorrência, estacionamento).
- Consulta prévia na vigilância sanitária. Antes de qualquer obra. Leve a planta do imóvel e pergunte o que precisa adequar.
- Abrir CNPJ e inscrições. Receita Federal, prefeitura, CREFITO PJ — em paralelo.
- Reformar com base no que a vigilância pediu. Não antes.
- Comprar equipamento depois da reforma. Maca instalada antes do piso novo é trabalho dobrado.
- Alvarás (funcionamento + sanitário) com tudo pronto. Eles vêm vistoriar — se faltar item, você refaz.
- Sistema de gestão configurado antes do primeiro paciente. Cadastrar serviços, definir horários de atendimento, configurar pagamentos. Atender 2 semanas sem sistema e depois “migrar” custa horas que você não tem.
- Marketing começa antes da inauguração. Google Meu Negócio com foto da fachada, Instagram com conteúdo, parcerias com médicos da região — 30 dias antes de abrir.
Faixas totais: o que esperar
Reunindo tudo, em faixas honestas:
| Cenário | Investimento inicial | Caixa de segurança (3 meses) | Total para começar |
|---|---|---|---|
| Sala alugada já pronta, equipamento mínimo, cidade média | R$ 8 mil a R$ 15 mil | R$ 10 mil a R$ 15 mil | R$ 18 mil a R$ 30 mil |
| Sala alugada com reforma leve, capital | R$ 18 mil a R$ 30 mil | R$ 12 mil a R$ 18 mil | R$ 30 mil a R$ 48 mil |
| 2-3 salas, reforma média, equipamento variado, capital | R$ 35 mil a R$ 60 mil | R$ 15 mil a R$ 25 mil | R$ 50 mil a R$ 85 mil |
Os números pulam de patamar quando você adiciona equipamentos especializados (RPG, pilates clínico, eletroterapia avançada) ou quando o ponto exige reforma estrutural pesada. Por outro lado, começar enxuto é estratégia legítima — a maior parte das clínicas que estão hoje faturando bem começou em uma sala só, com maca e o básico, e foi crescendo com caixa gerado.
A conta que você precisa fazer antes de assinar qualquer coisa
Antes de bater o martelo, faça essa conta de uma página:
- Investimento inicial: soma das categorias acima conforme seu cenário
- Custo fixo mensal: aluguel + contas + sistema + contador + material + marketing
- Receita esperada no mês 6: quantos atendimentos por mês × preço da sessão
- Lucro líquido esperado no mês 6: receita − custo fixo − custo variável (luva, gel, energia extra)
- Tempo para devolver o investimento: investimento inicial ÷ lucro líquido mensal
Se a conta dá payback de 8 a 18 meses, é faixa saudável. Acima de 24 meses, a estrutura está sobredimensionada para o porte da agenda — vale revisar antes de seguir.
Leia também:
- Como abrir um consultório de fisioterapia: documentos, COFFITO, alvará e o que vem antes do primeiro paciente
- Do consultório alugado ao espaço próprio: a conta que você precisa fazer antes de assinar o contrato
- Regime tributário para clínica de fisioterapia: Simples Nacional, Lucro Presumido ou Pessoa Física
- Fluxo de caixa para fisioterapeuta autônomo: como saber se vai fechar o mês no positivo
Quando a clínica abrir, você precisa de fluxo de caixa rodando desde o dia 1 — não 3 meses depois, quando o caos já se instalou. O Clinvo entrega agenda, prontuário e financeiro num plano que custa menos do que uma resma de papel timbrado. Testar grátis por 14 dias.