Paciente chega com dor lombar que desce pela perna. Você faz o Lasègue, ele acusa a 45°, e a tentação é fechar o raciocínio ali. O problema é que o Lasègue positivo, sozinho, diz bem menos do que parece — e um Spurling negativo, na cervical, diz quase nada.
Esta é a referência dos testes especiais da coluna, por região, para consultar na avaliação: como executar, o que conta como positivo e — a parte que costuma faltar — o que cada resultado permite concluir de fato.
Sensível ou específico: o que muda na hora de interpretar
Na coluna essa distinção pesa mais do que em qualquer outra articulação, porque a maioria das dores de coluna não tem um alvo estrutural único. Dois princípios organizam a leitura:
- Teste sensível que dá negativo ajuda a descartar. Ele raramente deixa passar quem tem a condição, então um negativo tem valor.
- Teste específico que dá positivo ajuda a confirmar. Ele raramente acusa quem não tem, então um positivo tem valor.
Trocar os dois papéis é o erro mais comum da avaliação de coluna: usar um teste específico e pouco sensível (como o Spurling) para “descartar” radiculopatia, ou tratar um teste sensível e pouco específico (como o Lasègue) como confirmação de hérnia. Por isso os agrupamentos de testes — descritos adiante — valem mais do que qualquer teste isolado.
Coluna cervical
| Teste | Como fazer | Positivo quando |
|---|---|---|
| Spurling | Sentado; extensão cervical + inclinação e rotação para o lado sintomático, com compressão axial suave | Reprodução da dor irradiada para o membro superior (não dor cervical local). Alta especificidade, baixa sensibilidade |
| Distração cervical | Decúbito dorsal; tração axial suave da cabeça | Alívio da dor irradiada (sugere origem radicular compressiva) |
| Tensão neural do membro superior (ULTT do mediano) | Depressão escapular, abdução e rotação lateral do ombro, extensão de cotovelo, punho e dedos | Reprodução dos sintomas do braço, com modificação pela inclinação cervical contralateral. Sensível, pouco específico |
| Rotação cervical ativa | Goniometria da rotação para o lado sintomático | Menos de ~60° de rotação, como um dos achados do conjunto |
| Valsalva | Paciente sopra contra resistência / prende a respiração fazendo força | Reprodução da dor irradiada (aumento da pressão intratecal) |
Leia por conjunto, não por teste. Spurling, distração cervical, teste de tensão neural e rotação abaixo de 60° formam o agrupamento clássico da radiculopatia cervical: três achados presentes já aumentam substancialmente a probabilidade, e os quatro juntos, bem mais do que isso. Um teste sozinho não sustenta a hipótese — nem a derruba. A partir daí a conduta na cervicalgia se organiza pelo padrão encontrado, não pelo nome do teste.
Coluna lombar e raiz nervosa
| Teste | Como fazer | Positivo quando |
|---|---|---|
| Lasègue (elevação da perna estendida) | Decúbito dorsal; eleva o membro com joelho estendido | Reprodução da dor irradiada entre ~30° e 70°. Dor só na posterior da coxa = tensão de isquiotibiais, não é positivo |
| Lasègue cruzado | Eleva o membro assintomático | Reprodução da dor no membro sintomático. Pouco sensível e bem mais específico — quando aparece, pesa |
| Bragard | No ângulo em que o Lasègue reproduziu, baixa levemente e faz dorsiflexão do tornozelo | Retorno da dor irradiada (componente neural, e não muscular) |
| Slump | Sentado, coluna em flexão, flexão cervical, extensão do joelho + dorsiflexão | Reprodução dos sintomas, aliviada ao desfazer a flexão cervical. Costuma ser mais sensível que o Lasègue |
| Estiramento do nervo femoral | Decúbito ventral; flexão do joelho e extensão do quadril | Dor na face anterior da coxa (raízes altas, L2-L4) |
O par Lasègue/Slump ilustra bem a regra de leitura: o Slump tende a ser o mais sensível dos dois e o Lasègue o mais específico, então um Slump negativo tem mais valor para afastar comprometimento radicular do que um Lasègue positivo tem para confirmá-lo. Vale lembrar que a sensibilidade do Lasègue cai bastante em pacientes idosos.
Todos esses achados alimentam a hipótese, não a fecham. A imagem e a avaliação médica complementam quando há suspeita de lesão estrutural relevante — e a decisão de tratar ou de encaminhar vem do quadro inteiro. Na prática, é assim que se monta a conduta na hérnia de disco lombar.
Articulação sacroilíaca
A sacroilíaca é o exemplo mais claro de região onde nenhum teste isolado decide. São cinco testes de provocação, e a interpretação é do conjunto:
| Teste | Como fazer | Positivo quando |
|---|---|---|
| Distração | Decúbito dorsal; pressão posterolateral sobre as EIAS, afastando-as | Reprodução da dor habitual do paciente |
| Compressão | Decúbito lateral; pressão descendente sobre a crista ilíaca | Reprodução da dor habitual |
| Thigh thrust | Decúbito dorsal; quadril a 90°, força axial posterior pelo fêmur | Reprodução da dor glútea posterior |
| Sacral thrust | Decúbito ventral; pressão anterior no centro do sacro | Reprodução da dor habitual |
| Gaenslen | Uma perna em flexão máxima de quadril, a outra pendendo para fora da maca | Reprodução da dor no lado testado |
A regra prática: três dos cinco positivos sustentam a hipótese de dor de origem sacroilíaca; menos que isso, não. E quando a distração e o thigh thrust são ambos negativos, a origem sacroilíaca fica pouco provável. Como a dor glútea e inguinal também vem do quadril, compensa cruzar esses achados com os testes especiais do quadril antes de fechar o raciocínio.
Achados que mudam a conduta na hora
Alguns resultados não são “mais um dado da avaliação” — eles alteram o que você faz em seguida:
- Sinais de síndrome da cauda equina: retenção ou incontinência urinária, anestesia em sela, déficit motor bilateral progressivo. Encaminhamento de urgência, não conduta fisioterapêutica.
- Lasègue cruzado positivo com déficit neurológico progressivo: avaliação médica antes de progredir carga.
- Suspeita de instabilidade cervical alta (trauma, artrite reumatoide, síndrome de Down): parestesias nos quatro membros, tontura e sensação de instabilidade ao movimento contraindicam manipulação e pedem encaminhamento — a triagem vem antes de qualquer técnica na cervical.
- Dor noturna, perda de peso, febre, história oncológica: o teste ortopédico não é o instrumento certo; a triagem de bandeiras vermelhas é.
Do achado ao registro
O teste só vira linha de base se o registro guardar o suficiente para repetir a medida. “Lasègue positivo” não permite comparação nenhuma daqui a três semanas — não diz o lado, o ângulo, nem o sintoma reproduzido.
Compare:
Registro pobre: Lasègue +, Slump +, dor lombar.
Registro útil: Lasègue a 40° à D, reproduzindo dor irradiada até panturrilha lateral; Bragard +. Slump + à D, aliviado com extensão cervical. Lasègue cruzado negativo. Rotação cervical preservada.
O segundo permite escrever, na reavaliação, que o Lasègue passou de 40° para 65° e a irradiação parou na coxa — que é exatamente o tipo de dado que sustenta um relatório e justifica a manutenção ou a alta. Combine os testes com a goniometria, a força e uma medida de função como o Índice de Oswestry para fechar a avaliação, e mantenha o mesmo padrão de execução em toda reavaliação — teste feito de jeito diferente não se compara com o anterior.
Para as demais articulações, a referência está nos guias dos testes do joelho, do ombro e do quadril.
No Clinvo, os testes especiais, a amplitude e as medidas de cada avaliação ficam registrados no prontuário do paciente, em sequência — na reavaliação você abre o histórico e compara o antes e o depois sem reconstruir nada de fichas soltas. Teste grátis por 14 dias, sem cartão de crédito.