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Coparticipação na fisioterapia: quem cobra, quando a clínica pode receber do paciente e como não cobrar duas vezes

Na maioria dos planos, a coparticipação é cobrada pela operadora no boleto, e não pela clínica no balcão. Veja como saber quem cobra, o que diz a regra sobre limites, o que dizer ao paciente antes da primeira sessão e como registrar sem cobrar a mesma sessão duas vezes.

Na recepção, a regra está num post-it: “Convênio X = R$ 15 de coparticipação por sessão”. Ninguém lembra de onde veio, mas faz sentido: o plano do paciente é com coparticipação, alguém precisa cobrar.

Três meses depois, o paciente chega com o boleto do plano na mão. Em cada data de sessão, uma linha: “coparticipação — fisioterapia — R$ 12,40”. Ele pagou a parte dele duas vezes, uma no balcão e outra no boleto. A próxima conversa dele não é com a recepção, é com a ouvidoria da operadora.

A coparticipação é o tipo de assunto que todo mundo acha que entende até precisar cobrar. Este guia separa o que é da operadora, o que é da clínica e o que não é de ninguém.

Coparticipação não é franquia, nem complemento

Antes de decidir quem cobra, vale separar quatro coisas que a recepção costuma misturar:

O que éComo funcionaQuem recebe do paciente
CoparticipaçãoParte do custo de cada procedimento usado, em percentual ou valor fixo, prevista no contrato do planoEm regra, a operadora, depois do atendimento. A clínica, só se o contrato de credenciamento mandar
FranquiaValor definido no contrato até o qual a operadora não paga a despesaConforme o contrato do plano
Complemento ou “diferença”Valor extra que o prestador cobra porque acha que o convênio paga poucoNinguém. Em procedimento coberto pelo plano, não é permitido
ParticularO paciente não usa o plano nessa sessão, por escolha ou porque ela não tem coberturaA clínica, pelo preço dela, sem guia

O complemento merece atenção à parte. Se o convênio paga pouco, o problema é o contrato de credenciamento, e a saída é renegociar ou refazer a conta do convênio. Repassar a diferença ao paciente numa sessão coberta é cobrança indevida, e ele pode reclamar na operadora e na ANS.

Quem cobra: na maioria das vezes, não é a clínica

Na definição que a ANS usa, a coparticipação é a participação do beneficiário na despesa, paga à operadora, no plano individual ou familiar, ou à pessoa jurídica contratante, no plano coletivo, depois de realizado o procedimento.

Na prática, o fluxo mais comum é este:

  1. A clínica atende e fatura a sessão na guia SP/SADT, pelo valor da tabela do convênio
  2. O convênio paga a clínica
  3. A operadora lança a coparticipação no boleto do paciente, discriminada por procedimento e data, geralmente no mês seguinte

Nesse fluxo, a clínica não recebe nada do paciente. Cobrar no balcão é exatamente o caso do post-it.

Existem contratos em que a coparticipação é recebida pelo prestador, no atendimento. Quando é assim, isso está escrito no contrato de credenciamento ou no manual do prestador da operadora, junto com o valor e com a forma como o convênio desconta essa parte do que paga à clínica. Se não está escrito, a resposta é não.

As três perguntas antes de cobrar qualquer valor

Para cada convênio, e não para cada paciente, confirme por escrito com a operadora:

  1. O plano tem coparticipação para fisioterapia? Isso varia por produto e por contrato. A informação vem da operadora, pelo portal ou pela central do prestador, não do que o paciente acha que contratou.
  2. Quem recebe: a operadora ou a clínica? Se for a operadora, a recepção não cobra nada.
  3. Se for a clínica, qual é o valor e como ele aparece no pagamento? Valor fixo ou percentual, e se o convênio paga a guia já com a coparticipação descontada.

Guarde a resposta junto do contrato de credenciamento. É ela que tira o post-it da recepção.

Quanto pode ser a coparticipação

Para a clínica, saber o limite importa menos para cobrar e mais para explicar ao paciente que reclama do boleto. O cenário atual:

  • A lei exige que o contrato preveja a coparticipação. O artigo 16, inciso VIII, da Lei 9.656/1998 manda o contrato informar a franquia, os limites financeiros ou o percentual de coparticipação.
  • Não existe percentual máximo em norma hoje. A RN 433/2018 da ANS chegava a permitir 40% e criava limites mensais e anuais, mas foi suspensa pelo STF em julho de 2018 e revogada pela própria ANS no mesmo ano.
  • O que vale é a CONSU 8/1998. O artigo 2º, inciso VII, proíbe coparticipação que caracterize financiamento integral do procedimento pelo usuário ou fator restritor severo ao acesso aos serviços.
  • O STJ já decidiu sobre fisioterapia. No REsp 1.848.372, de 2021, a 4ª Turma validou contrato com coparticipação de até 50% do valor da tabela depois de um número de sessões de fisioterapia por ano.
  • A regra pode mudar. Em março de 2026, a ANS abriu uma câmara técnica para atualizar as regras de coparticipação e franquia. Antes de citar limites ao paciente, confira se já saiu norma nova.

O que isso tem a ver com o paciente abandonar o tratamento

Coparticipação pesa mais justamente na fisioterapia, que é feita em série. Uma consulta com R$ 15 de coparticipação passa despercebida. Vinte sessões são R$ 300, e o paciente só descobre quando o boleto chega.

É uma das razões silenciosas de paciente que some no meio do tratamento: ele não reclama na clínica, simplesmente para de vir quando o boleto aperta. A clínica perde as sessões que faltavam e nem sabe por quê.

O que dizer ao paciente antes da primeira sessão

Um minuto de explicação na primeira sessão evita a surpresa do boleto. Dois textos para a recepção adaptar.

Quando a operadora cobra:

“Seu plano tem coparticipação para fisioterapia. Aqui na clínica você não paga nada: o plano cobra a sua parte no boleto, por sessão. O valor exato quem informa é o plano, mas para você ter uma ideia, o tratamento previsto é de 10 sessões.”

Quando a clínica recebe:

“Pelo contrato do seu plano, a coparticipação de R$ 15 por sessão é paga aqui, na clínica. Nas 10 sessões previstas, isso dá R$ 150. Você recebe o recibo de cada pagamento.”

Nos dois casos, o paciente sai sabendo quanto vai gastar no tratamento inteiro. É a mesma lógica de falar de dinheiro sem constrangimento: dita antes, a informação é cuidado; descoberta depois, vira desconfiança.

O que vai no recibo

O recibo, ou a nota fiscal, sai só pelo valor que o paciente pagou à clínica, com a data de cada pagamento. Se você atende como pessoa física, é o recibo do Receita Saúde.

Duas coisas não entram:

  • O valor que o convênio pagou. Ele não saiu do bolso do paciente.
  • A coparticipação cobrada no boleto do plano. Quem comprova esse pagamento é a operadora, não a clínica.

Recibo com o valor cheio da sessão para um paciente de convênio é o erro que aparece depois, na declaração de imposto de renda dele.

No controle da clínica: duas cobranças, dois devedores

Quando a clínica recebe a coparticipação, a mesma sessão gera dois valores a receber, de devedores diferentes:

A guia do convênioA coparticipação
Quem deveA operadoraO paciente
Quando entraNo pagamento do lote, semanas depoisNo dia da sessão
Pode ter glosa?SimNão
Se não pagarRecurso de glosaCobrança do paciente

Separar as duas evita três erros:

  • Cobrar duas vezes. A sessão coberta não pode ter, ao mesmo tempo, a coparticipação e uma cobrança particular lançada “por garantia”.
  • Cobrar do paciente o que o convênio glosou. A glosa é assunto entre a clínica e a operadora, resolvido por recurso de glosa. Ela não vira cobrança do paciente.
  • Pagar o repasse sobre a coparticipação. Se o profissional recebe por sessão, a regra precisa dizer se o repasse da sessão coberta segue o que o convênio paga ou a coparticipação. Os dois valores costumam ser muito diferentes.

No Clinvo, o faturamento de convênios mantém as duas cobranças separadas. A sessão coberta por uma autorização entra na guia do convênio, e no detalhe do agendamento o botão de pagamento comum dá lugar a Registrar coparticipação: o que o convênio paga nasce quando você fecha a guia, e ali entra só a parte do paciente. A coparticipação padrão pode ficar no cadastro do convênio ou de cada procedimento da tabela de preços, e o card da sessão mostra o valor previsto enquanto ela não é registrada. No Financeiro, essa cobrança ganha a marca Coparticipação. Sessão que já tem uma cobrança antiga lançada com a forma de pagamento “Convênio” não é vinculada à autorização, para o valor não ser contado duas vezes, e a comissão da sessão coberta é calculada sobre o valor do convênio, não sobre a coparticipação. O faturamento de convênios está nos planos Profissional e Clínica. Teste grátis por 14 dias, sem cartão de crédito.

Perguntas frequentes

A clínica de fisioterapia pode cobrar coparticipação do paciente de convênio?
Só quando o contrato de credenciamento ou o manual do prestador determina que a coparticipação seja recebida pela clínica. Na definição usada pela ANS, a coparticipação é paga pelo beneficiário à operadora, ou à empresa contratante no plano coletivo, depois do atendimento, e costuma aparecer no boleto do mês seguinte. Cobrar do paciente um valor por sessão coberta sem essa previsão é cobrança indevida, e ele ainda paga a coparticipação de novo no boleto do plano.
Qual é o limite de coparticipação em fisioterapia?
Hoje nenhuma norma da ANS fixa um percentual máximo. A RN 433/2018, que chegava a 40%, foi suspensa pelo STF e revogada no mesmo ano. Vale a CONSU 8/1998, que proíbe coparticipação que financie o procedimento por inteiro ou que funcione como fator restritor severo ao acesso. Em 2021 o STJ validou um contrato com coparticipação de até 50% do valor da tabela depois de um número de sessões de fisioterapia por ano. Em 2026 a ANS reabriu a discussão sobre o tema numa câmara técnica.
Coparticipação é a mesma coisa que franquia?
Não. Coparticipação é a parte que o beneficiário paga de cada procedimento que usa, em percentual ou em valor fixo. Franquia é um valor definido no contrato até o qual a operadora não paga a despesa. As duas precisam estar previstas no contrato do plano, e nenhuma delas autoriza a clínica a cobrar um valor extra do paciente por conta própria.
Como emitir recibo da coparticipação recebida na clínica?
O recibo, ou a nota fiscal, sai só pelo valor que o paciente pagou diretamente à clínica, com a data de cada pagamento. O que o convênio pagou não entra no recibo do paciente. Se a coparticipação foi cobrada pela operadora no boleto, quem comprova esse pagamento é a própria operadora, e a clínica não emite nada sobre ele.

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