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Protocolo pós-operatório de LCA fase a fase: os critérios de progressão que substituem o calendário

A reabilitação depois da reconstrução do ligamento cruzado anterior não avança por semana no calendário, e sim por critério cumprido. As quatro fases, o que medir para liberar cada uma e os números de retorno ao esporte.

“Estamos na sexta semana, então já pode iniciar agachamento.” Esse raciocínio é o que ainda organiza boa parte da reabilitação de LCA — e é também a razão pela qual dois pacientes operados no mesmo dia recebem a mesma carga quando um deles ainda tem derrame e não consegue contrair o quadríceps.

O calendário serve para saber o que já é permitido pela cicatrização do enxerto. Ele não diz se o paciente está pronto. Quem diz isso é o critério medido: derrame, extensão, ativação de quadríceps, simetria de força, controle no movimento unipodal.

Este é o roteiro por fases com os critérios de saída de cada uma. A estrutura geral de raciocínio está no guia de montar protocolo; aqui o foco é o pós-operatório de reconstrução do ligamento cruzado anterior.

Antes de montar: três informações do cirurgião

A progressão muda conforme o procedimento. Registre no prontuário, na primeira sessão:

  • Tipo de enxerto. Isquiotibiais (semitendíneo/grácil) pede cautela com fortalecimento agressivo de flexores nas primeiras semanas, porque há sítio doador. Tendão patelar tende a cursar com mais dor anterior e déficit de quadríceps. Enxerto de quadríceps, idem para a região doadora.
  • Procedimento associado. Reparo meniscal costuma trazer restrição de carga e de flexão profunda; meniscectomia, não. Lesões ligamentares combinadas mudam tudo.
  • Restrições explícitas. Carga liberada ou parcial, limite de amplitude, uso e regulagem de órtese, prazo até a primeira revisão.

Sem esses três dados, qualquer protocolo é chute — e o risco recai sobre o enxerto.

Fase 0 — pré-operatório (quando dá tempo)

Nem sempre você recebe o paciente antes da cirurgia. Quando recebe, é a fase com melhor retorno por sessão investida: quem entra na cirurgia com extensão completa, derrame controlado e quadríceps ativando costuma ter recuperação funcional mais rápida no pós.

Objetivos: eliminar derrame, recuperar extensão total, ativação voluntária de quadríceps sem extension lag, marcha sem claudicação e orientação sobre o que esperar das primeiras semanas.

Fase 1 — controle articular e ativação (a partir do pós-operatório imediato)

A prioridade desta fase não é força. É devolver a articulação a um estado em que ela permite trabalhar.

Metas:

  • Extensão completa é a meta número um. Déficit de extensão que se instala nas primeiras semanas é difícil de reverter e altera a marcha por meses. Extensão passiva em prono, mobilização patelar em todas as direções.
  • Controle de derrame. Crioterapia, compressão, elevação e — principalmente — dosagem de atividade. Joelho que incha depois da sessão recebeu carga além do que tolera.
  • Ativação de quadríceps. Isometria, elevação de perna estendida sem lag, eletroestimulação neuromuscular como adjuvante quando a ativação voluntária está muito pobre. Aqui você está combatendo a inibição artrogênica, não treinando hipertrofia.
  • Flexão progressiva conforme liberação, e marcha com desmame de auxiliares dentro da carga autorizada.

Critérios para sair da fase 1:

CritérioReferência
Derramemínimo ou ausente (teste de varredura grau 0 a 1)
Extensãocompleta, simétrica ao lado sadio
Flexãoem torno de 120° ou mais
Ativação de quadrícepscontração voluntária sem extension lag
Marchasem auxiliar e sem claudicação, dentro da carga liberada

Fase 2 — força e controle neuromuscular

Só agora o objetivo passa a ser carga. É a fase mais longa e a mais negligenciada: é aqui que se recupera — ou não — o déficit de quadríceps que persegue esse paciente por anos.

O que compõe:

  • Fortalecimento progressivo de quadríceps. Cadeia fechada (leg press em amplitude controlada, agachamento, avanço, degrau) e, com progressão cuidadosa a partir do momento autorizado, cadeia aberta para quadríceps — que hoje é considerada parte do arsenal, não uma proibição vitalícia.
  • Isquiotibiais e glúteos, com atenção ao sítio doador quando o enxerto veio dos flexores.
  • Transição para o unipodal. Ninguém corre em apoio duplo. Agachamento unipodal, degrau, e controle de valgo dinâmico com pelve estável.
  • Controle neuromuscular e propriocepção em superfícies e tarefas progressivamente menos previsíveis.
  • Condicionamento em bicicleta ou elíptico, mantendo o paciente ativo sem impacto.

Critérios para sair da fase 2:

  • Amplitude completa e indolor.
  • Força de quadríceps com LSI de 70 a 80% em dinamometria ou teste de carga padronizado.
  • Agachamento unipodal com controle, sem colapso em valgo, repetido sem perda de qualidade.
  • Ausência de derrame reativo depois das sessões — o joelho tolera a carga imposta.

Fase 3 — pliometria e corrida

Corrida é uma sequência de saltos unipodais. Liberar corrida sem absorção de impacto é o atalho que gera derrame recorrente e dor anterior no terço final da reabilitação.

Progressão: saltos bilaterais com aterrissagem controlada → saltos unilaterais → mudança de plano e altura → corrida linear com volume progressivo → aceleração e desaceleração.

Antes de liberar a corrida, confirme: ausência de derrame, amplitude completa, LSI de quadríceps de pelo menos 70%, agachamento unipodal com controle e marcha rápida indolor. Depois de liberar, o critério de progressão de volume é a resposta nas 24 horas seguintes: dor ou derrame no dia seguinte significa que o volume subiu demais.

Fase 4 — retorno ao esporte

É a fase em que o prazo volta a importar — e por um motivo com dado por trás. No coorte Delaware-Oslo (Grindem e colaboradores, 2016), cada mês de adiamento do retorno ao esporte até o nono mês esteve associado a uma redução expressiva do risco de nova lesão, e os atletas que voltaram sem passar na bateria de critérios tiveram várias vezes mais nova lesão do que os que passaram. São dados de coorte, não de ensaio clínico — mas convergem com o que outras séries mostram e sustentam a recomendação de não liberar pivô antes dos 9 meses.

Bateria de liberação, com referência usual de 90% de simetria:

DomínioMedidaReferência
Forçaquadríceps e isquiotibiais (dinamometria/1RM)LSI ≥ 90%
Saltobateria de hop tests — salto único, triplo, cruzado, salto cronometrado de 6 mLSI ≥ 90% em todos
Qualidade de movimentoaterrissagem e mudança de direção sem valgo dinâmicoavaliação em vídeo
Função percebidaIKDC ou KOOSpróximo ao normativo
Prontidão psicológicaACL-RSIescore baixo prediz não retorno
Tempodesde a cirurgia≥ 9 meses para esporte de pivô

O item que mais se esquece é o psicológico. Paciente com força simétrica e medo de voltar a girar sobre o joelho não retorna — ou retorna protegendo o membro, o que é justamente o padrão associado a nova lesão. O ACL-RSI existe para tornar esse medo mensurável em vez de anedótico.

Como registrar para que a progressão fique defensável

Um protocolo por critérios só funciona se os critérios ficarem escritos. Na prática, o que sustenta a decisão no prontuário é:

  • A medida de base, obtida na primeira avaliação: amplitude por goniometria, força pela escala de Oxford no início e por dinamometria quando disponível, perimetria, presença de derrame.
  • A reaplicação nos marcos, não a cada sessão — transição de fase, liberação de corrida, liberação de esporte.
  • A frase que justifica a mudança de fase: “extensão simétrica, sem derrame, LSI de quadríceps 78% — liberada corrida linear em progressão de volume”. Isso é o que responde ao médico que encaminhou, ao convênio que questiona a quantidade de sessões e ao próprio paciente que quer saber por que ainda não pode jogar.

O paciente de LCA passa muitos meses com você. É o tipo de caso em que a evolução registrada em números — e não em “vem melhorando” — decide se ele completa a reabilitação ou abandona no quarto mês, quando a dor já passou e a força ainda não voltou.


No Clinvo, você monta o modelo de ficha de avaliação com os campos que esse caso exige — amplitude, perímetro, LSI, escore de escala — e reaplica o mesmo modelo nos marcos, com o histórico lado a lado na evolução do paciente. Os horários recorrentes já deixam a série de sessões agendada, e o relatório fisioterapêutico em PDF sai com os dados que você registrou, sem redigitar nada.

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Perguntas frequentes

Quanto tempo dura a reabilitação depois da cirurgia de LCA?
Entre 9 e 12 meses até o retorno completo ao esporte de pivô, e esse prazo não é conservadorismo: no coorte Delaware-Oslo, cada mês de adiamento do retorno ao esporte até o nono mês esteve associado a uma redução expressiva na taxa de nova lesão. Para atividades do dia a dia e trabalho sem impacto, a liberação é bem mais precoce — normalmente entre 3 e 4 meses. O que define a progressão dentro desse período são os critérios cumpridos, não a data.
Quais critérios o paciente precisa cumprir para voltar a correr depois da reconstrução do LCA?
Os mais usados são: ausência de derrame articular, extensão completa e flexão próxima da simétrica, força de quadríceps com índice de simetria de pelo menos 70% em relação ao lado sadio, agachamento unipodal com controle de valgo dinâmico e marcha rápida sem dor. Só o tempo de cirurgia — o famoso 'já faz três meses' — não é critério.
O que é o LSI (índice de simetria entre os membros) na reabilitação de LCA?
LSI (limb symmetry index) é o resultado do membro operado dividido pelo do membro sadio, em porcentagem. Aplica-se a força (dinamometria ou 1RM) e a testes de salto. A referência comum é LSI de 70 a 80% para liberar corrida e a partir de 90% para retorno ao esporte. A ressalva importante: se o lado sadio também perdeu força durante a recuperação, o LSI superestima a recuperação real — vale comparar também com o valor pré-lesão ou normalizar pelo peso corporal.
Reparo de menisco junto com a reconstrução do LCA muda a reabilitação?
Muda, e bastante. Reparo meniscal costuma vir com restrição de carga e de flexão profunda nas primeiras semanas, e com cuidado prolongado com agachamento além de 90° e rotação sob carga. Meniscectomia praticamente não impõe essa restrição. Antes de montar a progressão, confirme com o cirurgião o tipo de enxerto, se houve procedimento meniscal ou ligamentar associado e quais são as restrições de carga e amplitude.
O que é a inibição muscular artrogênica no pós-operatório de joelho?
É a dificuldade reflexa de ativar o quadríceps na presença de derrame e dor articular — o músculo não responde bem ao comando mesmo estando íntegro. É a razão pela qual controlar o derrame vem antes de fortalecer: enquanto a articulação está inchada, o ganho de força fica limitado por mais exercício que se prescreva. Sinal clássico é o extension lag, a incapacidade de estender o joelho ativamente até onde ele vai passivamente.

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