Você escreve “tônus aumentado em MSE” na avaliação — e três semanas depois não consegue dizer se o baclofeno começou a fazer efeito ou se o programa de alongamento está ganhando terreno. O problema não é a mobilização: é a falta de uma escala que qualquer colega leia da mesma forma. A Ashworth Modificada resolve isso com seis graus que padronizam a leitura da espasticidade — de 0 a 4, com o 1+ no meio.
Esta é a tabela de referência, a diferença crítica entre 1 e 1+, e o que falseia o teste. Ao lado da escala de Oxford (força) e das escalas funcionais, ela compõe a avaliação objetiva do paciente neurológico.
A tabela: graus 0 a 4
A Escala de Ashworth Modificada (MAS) foi proposta por Bohannon e Smith em 1987 sobre a escala original de Ashworth (1964). A modificação principal foi acrescentar o grau 1+, que aumentou a sensibilidade em pacientes com espasticidade leve.
O teste é feito com mobilização passiva rápida do segmento — cerca de um segundo para percorrer toda a amplitude — com o paciente relaxado. A leitura é qualitativa, baseada na resistência sentida pelo avaliador:
| Grau | O que você sente na mobilização passiva |
|---|---|
| 0 | Nenhum aumento de tônus muscular |
| 1 | Leve aumento — resistência mínima apenas no final da amplitude |
| 1+ | Leve aumento — resistência mínima em menos de metade da amplitude |
| 2 | Aumento mais marcante em quase toda a amplitude, mas o segmento move-se facilmente |
| 3 | Aumento considerável — movimento passivo difícil |
| 4 | Segmento rígido em flexão ou extensão |
O grau 2 é o divisor prático: abaixo dele, a espasticidade não impede o manejo funcional; a partir dele, a mobilização passiva começa a exigir esforço do fisioterapeuta e a comprometer a conduta de alongamento e reeducação motora.
O 1+ existe por uma razão
A escala original tinha um salto grande entre o “resistência só no final” (grau 1) e o “resistência em toda amplitude” (grau 2). Na prática, a maioria dos pacientes com espasticidade leve ficava naquele meio-termo — resistência aparecia antes do final, mas não em toda a amplitude — e o fisioterapeuta era forçado a arredondar para cima ou para baixo, perdendo a evolução real.
O 1+ captura exatamente esse meio-termo: resistência mínima em menos da metade da amplitude. Um paciente pós-AVC no terceiro mês pode oscilar entre 1+ e 2 conforme o programa de reabilitação avança — e essa oscilação é justamente o que você quer registrar para justificar a conduta.
O que falseia o grau (e como evitar)
Um grau mal medido leva a conduta errada e some na reavaliação. Os erros mais comuns:
- Confundir espasticidade com encurtamento. Se o músculo está encurtado por contratura fixa, a resistência é constante — não velocidade-dependente. Antes de graduar, avalie a amplitude passiva e ative os antagonistas para diferenciar tônus de comprimento.
- Velocidade inconsistente. A espasticidade é velocidade-dependente: o teste tem que ser rápido (~1 segundo). Movimentar devagar reduz a resposta ao estiramento e mascara o grau real.
- Paciente tenso. Ansiedade, dor ou frio aumentam o tônus de base. Explique a manobra, aqueça o segmento e reavalie após alguns minutos se o paciente estava contraído.
- Não estabilizar a proximal. Sem estabilização, o segmento adjacente compensa e a resistência que você sente vem da articulação errada.
- Aplicar em Parkinson. A rigidez parkinsoniana é diferente da espasticidade: é uniforme em toda amplitude (“cano de chumbo” ou “roda dentada”), não velocidade-dependente. Use a UPDRS para Parkinson — não a Ashworth.
Da medida ao prontuário
Grau de espasticidade só vira evolução clínica quando entra em sequência. “Flexores plantares D: Ashworth 3 → 2 → 1+ ao longo de 8 sessões” é prova de resposta ao programa de alongamento sustentado e órtese noturna; “tônus melhorando” não sustenta nada.
Registre na avaliação e nas reavaliações:
- Segmento e lado (ex.: flexores de cotovelo E, flexores plantares D).
- Grau da MAS (0, 1, 1+, 2, 3 ou 4).
- Posição do teste (a padronização é o que torna as medidas comparáveis).
Esse conjunto sustenta a conduta, o relatório para a equipe médica (útil quando há discussão sobre toxina botulínica ou ajuste de baclofeno) e a decisão de progressão — e se conecta ao registro estruturado exigido no prontuário.
No Clinvo, o grau de Ashworth de cada avaliação fica registrado nas evoluções vinculadas ao paciente, em sequência — então a progressão (grau 3 → 2 → 1+) aparece de relance na linha do tempo do paciente, sem reconstruir de fichas soltas. Teste grátis por 14 dias, sem cartão de crédito.