“É só 0,9% de CBS e 0,1% de IBS em 2026, e ainda deduzido dos tributos atuais — daqui pra 2027 eu resolvo.” Essa é a leitura que 90% dos fisioterapeutas fizeram da reforma tributária, e é a leitura que vai custar caro no próximo ano.
O ponto de 2026 nunca foi a alíquota. Foi a obrigação acessória — o padrão de nota fiscal, os campos novos, a classificação fiscal — que passou a valer para todo mundo em janeiro, mesmo com o imposto simbólico. E é ano de escolha estratégica: continuar como autônomo ou virar PJ. Porque a partir de 2027 a régua muda, e sem CNPJ o fisioterapeuta fica fora do único mecanismo que a reforma criou para desonerar a saúde.
O que mudou em 2026 (e o que passou despercebido)
A Lei Complementar 214/2025 entrou em vigor em 1º de janeiro. O primeiro ano é um piloto: as novas alíquotas de CBS (0,9%) e IBS (0,1%) começaram a rodar em paralelo aos tributos antigos (PIS, Cofins, ISS), e o valor pago da nova é abatido do que já se pagava. A conta bancária não sentiu.
O que mudou de verdade:
- NFS-e no padrão nacional. As prefeituras estão migrando, cada uma no próprio ritmo. Onde o novo padrão já está no ar, é ele que vale.
- Novos campos obrigatórios: destaque de CBS e IBS, código da classificação fiscal do serviço, indicação de regime tributário do prestador e do tomador.
- Adaptação de sistema de emissão. Se você usa um software para emitir NFS-e ou emite direto no portal da prefeitura, o formato de arquivo mudou. Erros de preenchimento hoje ainda são tolerados; em 2027 passam a gerar rejeição e autuação.
Ou seja: 2026 é o ano de errar de graça. Todo mundo que só olhar em janeiro de 2027 vai chegar com sistema desconfigurado e nota rejeitada.
O que muda de verdade a partir de 2027
A reforma unificou dois pares de tributos:
- CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) substitui PIS, Cofins e IPI. Federal.
- IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) substitui ICMS e ISS. Estadual/municipal.
Somados, formam o IVA brasileiro, com alíquota total estimada em torno de 26,5% na média — e é aí que entra o desconto da saúde: redução de 60% da alíquota geral, o que na prática coloca serviços de fisioterapia por volta de 10% a 11% de IVA.
O detalhe silencioso: essa redução vale para PJ. O autônomo pessoa física não emite CBS/IBS, não gera crédito para quem contrata e não se beneficia da regra de redução do setor. Ele paga o imposto de renda pela tabela progressiva, o INSS de autônomo e o ISS — sem o benefício do IVA reduzido.
Para uma clínica ou consultório que já é PJ, o cenário é confortável (a alíquota efetiva costuma cair ou ficar estável). Para o autônomo puro, a régua sobe. E 2026 é o ano em que essa conta precisa ser feita.
A conta PJ vs autônomo pós-reforma
O comparativo simplificado, com números redondos para ficar visual (não é substituto de um contador):
| Cenário | Faturamento mensal | Tributo aproximado | Observação |
|---|---|---|---|
| Autônomo (PF) — Carnê-Leão + INSS + ISS | R$ 15.000 | ~27,5% IR na faixa alta + 11% INSS até o teto + 2 a 5% ISS | Sem crédito IVA para o contratante |
| PJ Simples Nacional Anexo III | R$ 15.000 | ~6% a 8,21% de alíquota efetiva | Redução IVA de 60% na saúde a partir de 2027 |
| PJ Lucro Presumido | R$ 15.000 | ~13,33% carga efetiva | Faz sentido acima do teto do Simples (R$ 4,8 mi/ano — quase nenhum fisio) |
O ganho de virar PJ no Simples Nacional para o fisioterapeuta é grande por três motivos combinados:
- Anexo III sem Fator R — a fisioterapia entra direto no anexo que começa em 6%, não precisa provar folha de pagamento como outras profissões da saúde.
- Redução IVA da saúde — vale só para quem emite CBS/IBS, ou seja, PJ.
- Crédito para o contratante — clínica corporativa, empresa que contrata ginástica laboral e plano de saúde credenciando prestador começam a preferir PJ para aproveitar crédito de IVA.
Ponto de atenção: virar PJ tem custo fixo (contador, DAS, obrigações acessórias) que só se paga com um faturamento mínimo. Abaixo de aproximadamente R$ 4 mil a R$ 5 mil por mês, o autônomo ainda pode fazer sentido — mesmo com a reforma. A partir daí, roda a simulação.
Se você já é PJ: o que ajustar no dia a dia da clínica
Três frentes práticas em 2026:
- Sistema de emissão de NFS-e: garantir que está no padrão nacional e destacando CBS e IBS corretamente. Se a prefeitura já migrou e você ainda emite no padrão antigo, a nota pode ser aceita hoje mas rejeitada em 2027.
- Cadastro de serviços: a classificação fiscal do serviço prestado (código da atividade) precisa estar correto. Fisioterapia é 8650-0/04.
- Contrato com pacientes corporativos: começar a padronizar cláusula de emissão de NFS-e para permitir crédito de IVA ao contratante. Vai virar diferencial competitivo.
Se você é autônomo: as três decisões desse ano
- Simular PJ com contador que entende de saúde. Não é o mesmo contador da farmácia. Contabilidade especializada tem simulador que compara PF vs Simples Anexo III com seu faturamento real. A conta demora 20 minutos.
- Se decidir migrar, começar agora. Abertura de MEI está fora de cogitação para fisioterapia (a atividade não é permitida). O caminho é Sociedade Limitada Unipessoal (SLU), Empresário Individual (EI) ou LTDA — cada um com implicações. O processo de abertura leva 15 a 45 dias dependendo do município.
- Se decidir ficar como PF, pelo menos ajustar o Carnê-Leão. Registrar despesas dedutíveis mensalmente, não esperar a virada do ano. A tabela progressiva vai continuar pesada, e a única defesa é a dedução completa (livro-caixa, se aplicável).
O erro caro é decidir por inércia. Ficar como autônomo em 2026 é uma escolha ativa — não é a “opção segura” de ficar do mesmo jeito.
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