O reparo cirúrgico do manguito rotador cura o tendão. A fisioterapia decide se o ombro vai funcionar de novo. E a decisão mais cara desse processo não é qual exercício prescrever — é quando avançar de fase, porque avançar rápido demais reabre o reparo, e avançar devagar demais deixa uma cápsula rígida que também vira cirurgia.
Como no protocolo de LCA, a lógica aqui é a mesma: critério clínico decide a progressão, calendário só orienta a expectativa.
Fase 1 — Proteção (semanas 0 a 4-6)
Objetivo: proteger o reparo cirúrgico enquanto ele cicatriza, sem deixar o ombro travar.
O que fazer:
- Imobilizador conforme orientação do cirurgião (geralmente tipoia com abdução leve).
- Mobilização passiva assistida dentro dos limites definidos pela equipe cirúrgica — nunca ativa nessa fase.
- Movimentação de cotovelo, punho e mão livre, para prevenir rigidez em cadeia e edema.
- Controle de dor e inflamação.
O que NÃO fazer:
- Nenhum movimento ativo do ombro operado, mesmo que o paciente “sinta que consegue”.
- Nenhuma tração ou apoio de peso no braço operado.
Critério de progressão para a Fase 2 (não é a semana — é isto): ADM passiva funcional alcançada dentro do limite prescrito pelo cirurgião, dor controlada, e liberação médica formal para iniciar mobilização ativa-assistida. Reparos extensos ou de qualidade tecidual comprometida podem exigir prorrogação dessa fase além das 6 semanas — a decisão é do cirurgião, com o critério informando quando reavaliar.
Fase 2 — Mobilização ativa-assistida e ativa (semanas 6 a 12)
Objetivo: recuperar ADM ativa completa sem sobrecarregar o reparo.
- Progressão de passiva → ativa-assistida (polia, bastão) → ativa livre, na ordem, sem saltar etapa.
- Exercícios de amplitude em todos os planos, priorizando flexão, abdução e rotações dentro da tolerância.
- Início de exercícios isométricos submáximos, sem resistência externa.
Critério de progressão para a Fase 3: ADM ativa completa ou próxima da completa, sem dor significativa na execução, e força muscular suficiente para controlar o próprio movimento do braço contra a gravidade (não contra resistência externa ainda).
Fase 3 — Fortalecimento progressivo (mês 3 ao 5)
Objetivo: restaurar força e controle neuromuscular do manguito e da escápula.
- Exercícios isotônicos com resistência progressiva (elástico, depois peso livre leve), priorizando os rotadores externos e o controle escapular antes de carga alta em rotadores internos.
- Trabalho de propriocepção e estabilidade em cadeia cinética fechada.
- Reintrodução gradual de atividades funcionais leves do dia a dia.
Critério de progressão para a Fase 4: força simétrica comparada ao lado não operado em torno de 80% ou mais nos testes manuais/funcionais, ausência de dor durante fortalecimento com carga moderada, e controle escapular adequado durante elevação do braço.
Fase 4 — Retorno funcional e esportivo (mês 5 ao 9)
Objetivo: retorno a atividades específicas do paciente — trabalho, esporte, atividades acima da cabeça.
- Exercícios pliométricos e de potência para pacientes com demanda esportiva ou ocupacional que exige movimento acima da cabeça.
- Simulação progressiva de gestos específicos da atividade que o paciente vai retomar.
- Reavaliação funcional formal antes da liberação completa — não é “o paciente disse que está bem”, é teste objetivo.
Critério de liberação final: ADM completa e simétrica, força funcional equivalente ao lado contralateral, ausência de dor nos testes especiais de manguito (ver a tabela de testes do ombro) e tolerância confirmada ao gesto específico da atividade a que o paciente vai retornar.
O que registrar em cada fase
- ADM ativa e passiva (graus, comparado ao lado contralateral).
- Força muscular por grupo (rotadores externos/internos, deltoide, estabilizadores de escápula).
- Dor durante e após o exercício (EVA).
- Data da liberação médica para cada transição de fase — documento que protege você e o paciente se houver qualquer complicação.
“Semana 8, ADM ativa 140° flexão (contralateral 165°), força rotadores externos grau 3, sem dor em repouso” é prova de progresso real. “Paciente evoluindo bem” não sustenta nem o relatório para o cirurgião, nem a decisão de avançar de fase.
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