Quase todo fisioterapeuta que pensa em publicar um comparativo já ouviu as duas respostas: “não pode, é antiético” e “pode, desde que o paciente autorize”. As duas circulam em curso de marketing, em grupo de WhatsApp e em post de colega, com a mesma convicção.
A resposta está no texto do Código de Ética — e ele mudou em 2021. A Resolução COFFITO 532, de 24 de junho de 2021, publicada no Diário Oficial em 7 de julho daquele ano, não se limitou a autorizar o uso de imagens de pacientes: ela reescreveu o artigo 15 do Código de Ética e passou a mencionar, com todas as letras, as fotografias comparativas. Boa parte da orientação que ainda circula é anterior a essa mudança.
Este artigo trata só do comparativo: o que o texto autoriza, o detalhe que quase todo mundo ignora, o que efetivamente vira infração e o que fazer quando a foto não é o melhor caminho.
O que o Código de Ética diz hoje, com as palavras dele
Antes de 2021, o artigo 15, V, vedava inserir em anúncio ou divulgação profissional “nome, iniciais de nomes, endereço, fotografia ou qualquer outra referência que possibilite a identificação” do paciente — e ponto. Como fotografia comparativa identifica quem aparece nela, a leitura corrente era a de que o formato estava fora.
A redação dada pela Resolução 532 é outra. Hoje é vedado ao fisioterapeuta:
“V - inserir em anúncio ou divulgação profissional, bem como expor em seu local de atendimento/trabalho, nome, iniciais de nomes, endereço, fotografia, inclusive aquelas que comparam quadros anteriores e posteriores ao tratamento realizado, ou qualquer outra referência que possibilite a identificação de cliente/paciente/usuário, salvo com a autorização formal prévia do cliente/paciente/usuário ou do responsável legal.
Parágrafo único. Havendo autorização formal, a divulgação de imagens, textos e áudios de cliente/paciente/usuário poderá ser reproduzida, em quaisquer meios de comunicação, inclusive para finalidade comercial, vedada, ainda assim, qualquer forma de identificação, exceto se expressamente autorizada pelo cliente/paciente/usuário, observando-se, em qualquer hipótese, a dignidade da profissão e do paciente, além da autenticidade da imagem.”
Três leituras saem daí, e todas importam:
- O antes e depois deixou de ser proibição e virou condição. O conselho não ignorou o formato: citou-o nominalmente para dizer que a vedação cai diante de autorização formal prévia.
- A finalidade comercial está expressa. Não é preciso disfarçar o post de “conteúdo educativo” para ficar em segurança. O uso promocional está previsto no próprio parágrafo.
- A autorização não é um cheque em branco. É aí que mora o detalhe que quase ninguém percebe — e é o próximo tópico.
Vale registrar que essa é a regra da fisioterapia. Outros conselhos profissionais tratam publicidade e imagem de paciente de maneira diferente, e adotar a orientação do conselho vizinho é uma das formas mais comuns de errar para os dois lados: proibir o que é permitido, ou permitir o que não é.
Os dois consentimentos que quase todo mundo confunde
Releia o trecho final do parágrafo único: havendo autorização formal, a imagem pode ser divulgada, “vedada, ainda assim, qualquer forma de identificação, exceto se expressamente autorizada”.
Ou seja: são duas autorizações distintas.
- Autorização 1 — usar a imagem. Permite publicar a foto do segmento tratado, o comparativo, o vídeo do exercício.
- Autorização 2 — identificar a pessoa. Permite que a publicação traga rosto, nome, iniciais, endereço ou qualquer elemento que torne aquela pessoa reconhecível.
Um termo que diz apenas “autorizo o uso da minha imagem” resolve a primeira e deixa a segunda em aberto. Na prática, o comparativo publicado com o rosto do paciente e um termo genérico está exatamente na hipótese que o parágrafo continua vedando.
E “identificação” é mais ampla do que rosto. Já apareceu comparativo de joelho que identificava a paciente por:
- tatuagem, cicatriz cirúrgica marcante, aliança, esmalte, pulseira hospitalar
- fundo da foto: a sala da casa dela, a placa da clínica do bairro, um quadro na parede
- a legenda: idade + profissão + bairro + condição — quatro dados que, juntos, identificam uma pessoa em cidade de 20 mil habitantes
- o próprio nome do arquivo e as marcações do post
A pergunta útil na hora de publicar não é “aparece o rosto?”, e sim “alguém que conhece essa pessoa vai reconhecê-la aqui?”. Se a resposta for sim e não houver autorização expressa para identificar, o enquadramento precisa mudar — ou o post não sai.
O que transforma um antes e depois lícito em infração
Nos casos que viram representação no CREFITO, a foto costuma ser a parte menos problemática. Quatro erros respondem pela maioria deles.
1. A legenda promete
O artigo 3º da Resolução 532 é direto: fica proibido o uso de expressões escritas ou faladas que possam caracterizar sensacionalismo, concorrência desleal ou promessa de resultado infalível. O artigo 46 do Código de Ética completa: a promoção pública dos serviços deve ser feita “com exatidão e dignidade, vedada a promessa de resultado infalível”.
Então some da legenda:
- Prazo: “em 6 sessões”, “em 30 dias”, “resultado em 1 mês”
- Garantia: “resultado garantido”, “cura definitiva”, “100% dos casos”
- Exclusividade: “método exclusivo”, “técnica que só eu faço”
- Comparação depreciativa: “o fisioterapeuta anterior não resolveu”, “diferente do que fazem por aí”
O ponto que mais custa a entrar: o resultado ter realmente acontecido não autoriza a frase. Aquela paciente melhorou em seis sessões; a próxima pode precisar de vinte. O que a norma proíbe não é mentir — é prometer.
A legenda segura descreve aquele caso, no passado, sem estender a promessa a quem lê: “paciente com dor no ombro há 8 meses; na imagem, a elevação de braço na avaliação inicial e após 12 semanas de tratamento”.
2. Falta o rodapé obrigatório
O artigo 4º exige que toda publicação de imagens, textos e áudios traga:
- nome do profissional
- número de inscrição (CREFITO)
- data das imagens, textos e áudios
Três informações, uma linha. É o item mais fácil de cumprir e o mais esquecido — e a ausência dele é objetiva, não interpretável: ou está no post, ou não está. Deixe as duas primeiras fixas no seu template de card e no perfil; a data muda a cada publicação.
3. A imagem não é sua
O mesmo artigo 4º veda a divulgação de casos clínicos de autoria de terceiros. Isso alcança a foto salva do Instagram do colega, a imagem de banco gratuito apresentada como caso próprio, o comparativo do congresso e o print do grupo de estudos. O caso publicado precisa ser de atendimento realizado por você.
4. A comparação é manipulada
O parágrafo único exige observar “a dignidade da profissão e do paciente, além da autenticidade da imagem”. É uma cláusula com dente: um “antes” fotografado com luz dura, postura relaxada e ângulo desfavorável, contra um “depois” com luz suave, postura corrigida e o paciente contraindo, não é resultado — é produção. Filtro, edição e mudança de enquadramento entre as duas fotos entram na mesma conta.
E o artigo 5º fecha o cerco: a divulgação em desacordo com a norma é considerada infração ética de manifesta gravidade. Não é formalidade menor.
Checklist de 60 segundos antes de postar
- Existe autorização formal prévia, por escrito e específica para esta finalidade? (o TCLE genérico da anamnese não serve)
- A autorização cobre identificação, se a pessoa está reconhecível?
- Os canais em que vou publicar estão marcados no termo?
- O post traz nome, CREFITO e data das imagens?
- A legenda está livre de prazo, garantia, exclusividade e comparação com colegas?
- As duas fotos foram feitas nas mesmas condições de luz, ângulo, distância e postura?
- O caso é meu?
Sete perguntas. Se qualquer uma falhar, o custo de não postar é zero — e o de postar pode ser um processo ético.
Como padronizar a foto (o prontuário agradece mais que o Instagram)
Se você vai fotografar a evolução, vale fazer direito desde a avaliação — e aqui a motivação deixa de ser marketing.
- Marque o chão com fita: mesma distância, sempre
- Mesma altura de câmera, de preferência com tripé ou apoio fixo
- Mesma luz e, se possível, mesmo horário do dia
- Mesma roupa ou padrão de exposição do segmento
- Mesma orientação verbal: “fique em pé como você fica normalmente” — nada de “corrija a postura”
- Registre a data em cada captura
Feito assim, o comparativo vira documentação clínica antes de virar post: entra como anexo no prontuário do paciente, sustenta o relatório de evolução e, no dia em que houver questionamento, é a sua prova. O Instagram passa a ser o uso secundário — e opcional.
Vale lembrar que foto é a forma mais frágil de demonstrar resultado em fisioterapia. Amplitude de movimento medida com goniometria, escala de dor, tempo de teste funcional e número de repetições dizem mais, expõem menos e não dependem de autorização de imagem para entrar no relatório.
O que converte melhor do que o antes e depois
Quem trabalha com conteúdo há algum tempo percebe que o comparativo estático tem teto baixo: ele impressiona pouco em fisioterapia — ao contrário do que acontece na estética facial ou na odontologia — e desperta desconfiança em quem já viu comparativo demais na internet.
Três formatos que costumam render mais, com risco ético menor:
- Comparativo funcional em vídeo. A mesma tarefa — levantar da cadeira, subir dois degraus, elevar o braço — no início e semanas depois. O ganho fica óbvio em quatro segundos, e o corpo inteiro não precisa aparecer.
- O número, não a foto. “Elevação de ombro: 90° na avaliação, 165° na 12ª semana.” Um card com dois números é honesto, específico e não expõe ninguém.
- A voz do paciente. O relato costuma converter mais do que qualquer imagem, porque quem lê se reconhece na história. As regras são as mesmas e estão detalhadas no artigo sobre depoimento de paciente, com modelo de termo pronto.
Em fisioterapia estética e dermatofuncional o comparativo tem apelo comercial direto e é o formato mais cobrado pelo mercado — e também o que mais gera representação. Ali, o rigor com os quatro erros acima precisa ser maior, não menor.
Modelo de autorização para foto comparativa
Este termo é específico para imagem comparativa e separa os dois consentimentos que a norma distingue. Adapte o que está entre colchetes. Não substitui orientação jurídica nem consulta ao seu CREFITO regional — é um ponto de partida.
AUTORIZAÇÃO PARA USO DE IMAGEM COMPARATIVA (ANTES E DEPOIS)
Eu, [nome completo], CPF [número], [ou: responsável legal por [nome]], autorizo, de forma livre, gratuita e esclarecida, o(a) fisioterapeuta [nome completo], CREFITO-[região] nº [número], a utilizar fotografias e/ou vídeos do meu [segmento/região corporal], captados em [data(s)], que comparam o quadro anterior e posterior ao tratamento fisioterapêutico realizado.
1. Uso da imagem. Autorizo a divulgação das imagens nos seguintes canais: [ ] Instagram [ ] Facebook [ ] site [ ] Google [ ] material impresso [ ] outros: ______, inclusive com a finalidade comercial de divulgação da atuação profissional.
2. Identificação (decisão separada e independente da anterior). [ ] NÃO autorizo qualquer forma de identificação. As imagens deverão ser publicadas sem rosto, nome, iniciais, endereço ou qualquer elemento que permita meu reconhecimento. [ ] Autorizo a identificação por: [ ] rosto [ ] primeiro nome [ ] nome completo [ ] outro: ______.
3. Autenticidade. As imagens serão publicadas sem edição que altere o resultado (filtro, retoque, alteração de proporção). Ajustes de recorte e enquadramento são permitidos desde que aplicados igualmente às duas imagens.
4. Conteúdo da publicação. Estou ciente de que a publicação conterá o nome e o número de inscrição do profissional e a data das imagens, e de que não conterá promessa de resultado, prazo de tratamento ou garantia de qualquer natureza.
5. Prazo e revogação. Esta autorização vale por [prazo, ex.: 24 meses] a contar da assinatura. Posso revogá-la a qualquer momento, sem justificativa e sem qualquer prejuízo ao meu atendimento, por comunicação escrita ao(à) profissional, que removerá o conteúdo dos canais sob seu controle em até [prazo, ex.: 10 dias].
6. Proteção de dados. Estou ciente de que imagem vinculada a tratamento de saúde é dado pessoal sensível e será tratada nos termos da Lei nº 13.709/2018 (LGPD), limitada à finalidade aqui descrita.
7. Gratuidade. Declaro que não recebi nem receberei desconto, vantagem financeira ou benefício em troca desta autorização.
[Cidade], [data].
Assinatura do paciente / responsável legal
Assinatura do(a) fisioterapeuta — CREFITO-[região] nº [número]
Dois detalhes desse modelo fazem diferença: a cláusula 2 é uma decisão separada, com a opção de recusa em primeiro lugar — é o que traduz a exigência do parágrafo único; e a cláusula 7 não é enfeite, porque desconto em troca de imagem mistura captação com relação clínica e fragiliza o consentimento.
Guarde o termo assinado enquanto a publicação existir — o lugar natural é junto do conjunto de termos do paciente, no prontuário, e não numa pasta do celular que some na troca de aparelho.
E quando o paciente muda de ideia
A revogação é direito dele e tende a ser o momento mais desconfortável — normalmente acontece quando alguém reconheceu a pessoa e comentou.
O procedimento é simples e precisa ser rápido: remover das suas contas, remover do site, avisar quem administra suas redes e conferir se o material entrou em algum impresso ainda em circulação. O que já foi baixado ou reencaminhado por terceiros está fora do seu alcance — e é exatamente por isso que o prazo de autorização deve ser curto, a identificação deve ser evitada por padrão e o enquadramento deve mostrar o mínimo necessário.
A foto é a parte fácil
Desde 2021 a pergunta “pode antes e depois?” tem resposta: pode, com autorização formal prévia, inclusive para uso comercial, sem identificação salvo se expressamente autorizada, com nome, CREFITO e data na publicação, sem promessa e sem manipulação.
O que continua difícil é o resto — e é aí que a decisão fica. Se o resultado só aparece quando comparado em foto, provavelmente há uma medida melhor para mostrá-lo. Se ele aparece na medida, no vídeo funcional ou na frase do próprio paciente, o comparativo vira opcional. E o formato opcional é sempre o mais seguro de todos.
14 dias grátis, sem cartão de crédito. No Clinvo, o termo assinado e as imagens de evolução ficam anexados ao prontuário do paciente, com controle de acesso por usuário — onde servem de documentação clínica antes de servirem de post. Criar conta gratuita.