Você cobra R$ 110 a sessão. Achou esse valor perguntando para uma colega, ajustou levemente para a sua região e ficou com isso.
Nunca parou para calcular se R$ 110 cobre seus custos com margem. Nunca viu o que a tabela do COFFITO sugere para o procedimento que você realiza. E quando um paciente questiona o preço, você hesita — porque o argumento é só “é o que cobro”.
Isso é mais comum do que parece. E tem um ponto de partida simples para resolver: entender o que a tabela de honorários do COFFITO realmente é.
O sistema que poucos fisioterapeutas sabem ler
A tabela do COFFITO não é uma lista de preços. É um sistema de pontuação chamado Referencial Nacional de Procedimentos Fisioterapêuticos (RNPF).
Cada procedimento tem um número de pontos. Esses pontos são multiplicados pelo Coeficiente de Valoração (CV) — um valor em reais que o conselho atualiza periodicamente.
Em 2026, o CV está em R$ 0,85 por ponto.
Na prática:
- Uma sessão de cinesioterapia (exercícios terapêuticos) vale em torno de 180 pontos → ~R$ 153,00
- Uma consulta domiciliar vale cerca de 200 pontos → R$ 170,00
- Um atendimento combinando eletroterapia e cinesioterapia pode chegar a 220–260 pontos → R$ 187,00 a R$ 221,00
Se você cobra R$ 110 por uma sessão que o referencial precifica em R$ 153, você está trabalhando 28% abaixo do parâmetro técnico — provavelmente sem saber.
Mas ela não é obrigatória. Então por que importa?
O COFFITO não tem poder de obrigar nenhum fisioterapeuta a cobrar o valor da tabela. Não existe lei federal que imponha um piso de honorários no atendimento particular.
O que o conselho pode fazer é usar a tabela como referência em processos éticos que envolvam aviltamento de honorários — cobrar tão abaixo do mercado que cause dano à categoria. Mas isso é exceção. No dia a dia, você cobra o que quiser.
A tabela importa por outro motivo: ela é o único referencial técnico externo que você tem para embasar o seu preço.
Sem ela, você está comparando seu preço com o da colega — que pode estar tão perdida quanto você. Com ela, você tem um número com origem clara para usar quando o paciente questionar.
O que o mercado pratica na realidade
Os valores variam por região e especialidade, mas a faixa real do atendimento particular no Brasil hoje fica assim:
| Modalidade | Faixa praticada |
|---|---|
| Sessão em consultório | R$ 70 a R$ 200 |
| Sessão domiciliar | R$ 130 a R$ 220 |
| Teleconsulta / teleatendimento | R$ 90 a R$ 140 |
| Avaliação inicial | R$ 60 a R$ 130 |
A média nacional está entre R$ 100 e R$ 130 por sessão. O referencial COFFITO para atendimentos de complexidade média fica acima disso na maior parte dos casos.
A distância entre o referencial e o que se pratica tem três causas principais.
Desconhecimento do sistema de pontos. A maioria dos profissionais nunca calculou quanto vale, em reais, cada procedimento que realiza. Define preço por percepção de mercado local — que pode estar sistematicamente abaixo.
Contaminação pelos valores de convênio. Quem atende por planos de saúde sabe que as tabelas das operadoras pagam com frequência 40 a 60% do valor do RNPF. Quando o profissional acostuma a receber esses valores, eles distorcem o que parece “razoável” também no particular.
Dificuldade de sustentar o preço na conversa. Cobrar acima da média local exige saber explicar por quê. Fisioterapeutas sem argumento tendem a recuar quando o paciente hesita — e o preço vai para baixo por falta de repertório, não por falta de valor real.
Particular e convênio: a lógica é diferente
No atendimento por convênio, o preço não é seu. Você negocia com a operadora — ou aceita a tabela dela — e recebe conforme o contrato.
No particular, o preço é inteiramente sua responsabilidade. E é aqui que a tabela COFFITO funciona como âncora: o referencial externo que sustenta o valor que você pratica.
A diferença entre os dois modelos vai além do preço por sessão:
- Convênio: pacientes chegam sem você precisar captar, mas o valor por sessão é menor, o prazo de repasse varia e você não decide quantas sessões o plano autoriza.
- Particular: você precisa captar e construir reputação, mas recebe na hora, decide o protocolo sem burocracia e o preço reflete o procedimento real — não a tabela de uma operadora.
Essa não é uma decisão de qual é melhor no geral. É uma decisão sobre qual modelo faz sentido para a sua realidade — e ela afeta diretamente como você usa o referencial de honorários.
Como usar a tabela a favor, não como teto
O erro mais comum é tratar o referencial como o valor máximo permitido. Não é.
Profissionais com especialização reconhecida e agenda concorrida cobram regularmente acima da tabela — e os pacientes pagam porque o valor percebido justifica. A tabela é mais útil como piso de referência.
Três situações em que ela ajuda de forma concreta:
Ao negociar com convênios. Você tem um número com base técnica para comparar com o que a operadora oferece. Em vez de “parece pouco”, você pode mostrar a distância percentual em relação ao RNPF.
Ao explicar o preço para novos pacientes. “O referencial do conselho para esse procedimento é R$ X” é uma resposta mais sólida do que “cobro esse valor porque achei justo”. Ela coloca o preço num contexto externo — não numa decisão pessoal sujeita a negociação.
Ao revisar preço após uma especialização. O sistema de pontos diferencia procedimentos de complexidades distintas. Quem especializa tem base técnica para cobrar mais — não só por percepção, mas porque o referencial formal já reconhece essa diferença.
O sinal de que o preço está funcionando — ou não
Preço não é uma decisão estática. É uma hipótese que precisa ser acompanhada ao longo do tempo.
Os sinais mais diretos:
- Você aumentou o número de sessões por mês mas a receita ficou parada? O preço por sessão está baixo ou a taxa de falta está consumindo o ganho.
- Os serviços mais complexos da sua agenda — que justificariam preços mais altos — estão realmente sendo os mais realizados, ou você está cheio de atendimentos simples?
- Você tem pagamentos em aberto acumulando? Valor muito baixo às vezes atrai inadimplência — é contra-intuitivo, mas aparece nos dados.
Acompanhar isso exige ter os números organizados em algum lugar. Com os registros corretos, a decisão de preço para de ser intuição e passa a ter base.
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