Você cobra R$ 110 a sessão de ortopedia. Também cobra R$ 110 a sessão de fisioterapia pélvica, porque foi esse o número que saiu da conversa com uma colega quando você abriu o consultório, e desde então ele vale para tudo.
Se alguém perguntar se esse preço está abaixo da tabela do COFFITO, a resposta honesta é: depende de qual atendimento. Para o primeiro, o referencial do conselho é R$ 85,00, e você já cobra acima dele. Para o segundo, é R$ 340,00, e você cobra menos de um terço.
É isso que quase ninguém enxerga na tabela de honorários: ela não é um número só. E quem trata o preço como número único costuma ficar abaixo do referencial exatamente nos atendimentos que mais exigem formação e tempo.
O que é a tabela hoje
O nome mudou. A tabela atual é o Referencial Brasileiro de Procedimentos Fisioterapêuticos (RBPF), aprovado pela Resolução COFFITO 618, de junho de 2025. Muito material na internet ainda fala em “RNPF”, o Referencial Nacional que ele substituiu.
A lógica é a mesma: cada procedimento vale uma quantidade de Coeficiente de Valoração (CV), e o CV tem um valor em reais, reajustado todo ano pelo IPC-FIPE Saúde. O valor mais recente publicado é R$ 0,85 por CV, referente a 2025. Antes de colocar um número do referencial numa proposta, confira no site do COFFITO ou do seu CREFITO se já saiu o reajuste do ano.
Alguns procedimentos do RBPF, com o CV de R$ 0,85:
| Procedimento | CV | Valor |
|---|---|---|
| Consulta ambulatorial | 150 | R$ 127,50 |
| Consulta domiciliar | 200 | R$ 170,00 |
| Intervenção musculoesquelética ambulatorial (paciente independente ou com dependência parcial) | 100 | R$ 85,00 |
| Intervenção musculoesquelética ambulatorial (dependência total) | 150 | R$ 127,50 |
| Intervenção neurológica ambulatorial (independente ou dependência parcial) | 100 | R$ 85,00 |
| Intervenção neurológica ambulatorial (dependência total) | 200 | R$ 170,00 |
| Respiratória ou cardiovascular, individual, ambulatorial | 150 | R$ 127,50 |
| Uroginecológica, obstétrica e proctológica, ambulatorial | 400 | R$ 340,00 |
| Pessoa idosa, independente ou com dependência parcial | 180 | R$ 153,00 |
| Domiciliar, musculoesquelética | 210 | R$ 178,50 |
| Domiciliar, neurológica | 250 | R$ 212,50 |
| Pilates individual / em grupo | 250 / 150 | R$ 212,50 / R$ 127,50 |
| Reeducação Postural Global | 200 | R$ 170,00 |
| Osteopatia / Quiropraxia | 300 | R$ 255,00 |
| Teleconsulta / Teleatendimento | 150 / 100 | R$ 127,50 / R$ 85,00 |
Os valores são por procedimento. O referencial lista separadamente a consulta, as intervenções e os recursos (eletroterapia, ultrassom, laser), e a resolução não diz como combiná-los numa mesma sessão. Somar itens da tabela e chamar o total de “valor da sessão segundo o conselho” é uma conta que o próprio conselho não faz.
Ela não é obrigatória, e isso ficou mais claro depois de 2022
Durante anos o Código de Ética da Fisioterapia (Resolução 424/2013) teve dois artigos sobre o assunto. O artigo 37 mandava considerar o referencial como parâmetro básico dos honorários. O artigo 39 proibia cobrar “preço ínfimo”, definido como qualquer valor abaixo do referencial.
Os dois foram revogados pela Resolução 552/2022. Em abril de 2025, o CADE, órgão federal de defesa da concorrência, condenou o COFFITO por influenciar a adoção de conduta comercial uniforme na forma de tabelamento de preços, com multa de R$ 3,1 milhões. Na sequência, a Resolução 615/2025 revogou as tabelas de honorários e coeficientes de 2016 a 2019 e de 2021. A própria resolução registra que a decisão do CADE ainda não era definitiva.
O RBPF, publicado dois meses depois, fala em valores referenciais. Na prática:
- Cobrar abaixo do referencial deixou de ser infração no Código de Ética. Cobrar acima também não é.
- Texto antigo que fala em “processo ético por aviltamento de honorários” descreve uma regra que saiu do código em 2022.
- O preço é decisão sua. O referencial é um parâmetro externo com origem clara, que ajuda a tomar essa decisão.
Onde o seu preço provavelmente fica abaixo do referencial
Compare o referencial com o que se pratica no particular. As faixas de mercado variam muito por região e especialidade; as abaixo são uma estimativa do que se encontra hoje:
| Atendimento | Faixa praticada no particular | Referencial (RBPF) |
|---|---|---|
| Sessão em consultório | R$ 70 a R$ 200 | R$ 85,00 |
| Avaliação inicial | R$ 60 a R$ 130 | R$ 127,50 |
| Sessão domiciliar | R$ 130 a R$ 220 | R$ 178,50 a R$ 238,00 |
| Teleatendimento / teleconsulta | R$ 90 a R$ 140 | R$ 85,00 a R$ 127,50 |
Três leituras saem dessa comparação.
Na sessão comum de consultório, o referencial fica abaixo do mercado. Com a média do particular entre R$ 100 e R$ 130, quem cobra R$ 110 está cerca de 29% acima dos R$ 85,00 do RBPF. Aqui o referencial não serve de argumento para subir preço. O argumento é outro: o custo real da sua sessão, com margem.
A avaliação é a primeira perda. O referencial trata a consulta ambulatorial como procedimento próprio, com 150 CV (R$ 127,50). Muita gente cobra a avaliação pelo preço da sessão, ou embute na primeira sessão sem cobrar à parte. É uma hora de raciocínio clínico e registro vendida pelo valor de uma sessão de exercícios.
O desencontro maior está nos atendimentos especializados. Pélvica (R$ 340,00), osteopatia e quiropraxia (R$ 255,00), pilates individual (R$ 212,50), atendimento neurológico domiciliar (R$ 212,50), idoso com síndrome geriátrica (R$ 212,50). Quem aplica nesses atendimentos o mesmo preço da sessão comum fica muito abaixo do referencial. A própria Resolução 618/2025 diz que o atendimento feito por especialistas ou em ambientes especiais deve ser valorizado.
O domiciliar entra na mesma conta, com um agravante: deslocamento e tempo entre atendimentos não aparecem no preço se você não colocar. Há um passo a passo em quanto cobrar pela fisioterapia domiciliar.
Por que o preço desce sem ninguém decidir
Preço único para tudo. Um valor por sessão, qualquer que seja o atendimento. A tabela mostra que, entre a sessão comum e um atendimento especializado, a diferença pode ser de quatro vezes. O preço único apaga essa diferença.
Convênio como régua. Quem atende por plano de saúde se acostuma com o que a operadora paga por sessão, que costuma ficar bem abaixo do referencial. Aos poucos, esse número vira a régua do particular também, sem que ninguém tenha decidido isso.
Falta de argumento na conversa. Cobrar mais pelo atendimento especializado exige saber explicar por quê. Sem repertório, o profissional recua quando o paciente hesita, e o preço desce por falta de argumento, não por falta de valor.
Particular e convênio: a lógica é diferente
No convênio, o preço não é seu. Você aceita a tabela da operadora ou negocia com ela, e recebe conforme o contrato.
No particular, o preço é inteiramente sua responsabilidade. A diferença vai além do valor por sessão:
- Convênio: o paciente chega sem você precisar captar, mas o valor por sessão é menor, o prazo de pagamento varia e você não decide quantas sessões o plano autoriza.
- Particular: você precisa captar e construir reputação, mas recebe na hora, decide o protocolo sem burocracia e o preço reflete o atendimento real.
Não existe resposta certa no geral. Existe o modelo que fecha a conta na sua realidade, e o referencial ajuda a enxergar a distância entre os dois.
Como usar a tabela a seu favor
Para separar os preços por tipo de atendimento. Avaliação, sessão comum, atendimento especializado e domiciliar merecem preços diferentes. O referencial mostra a proporção entre eles; a sua conta de custo e margem mostra o valor mínimo de cada um.
Ao negociar com convênios. Compare procedimento por procedimento: quanto a operadora paga e quanto o referencial indica para o mesmo atendimento. É uma conversa mais sólida do que “parece pouco”, e ajuda a decidir se o credenciamento vale o tempo da sua agenda.
Ao explicar o preço do atendimento especializado. “O referencial do conselho para esse procedimento é R$ 340” funciona quando o seu preço está perto ou abaixo dele, como na pélvica ou na osteopatia. Na sessão comum, em que você provavelmente já cobra acima, o argumento é a sua experiência, o tempo dedicado a cada paciente e o que a sessão inclui.
Ao revisar o preço depois de uma especialização. A formação muda o tipo de atendimento que você oferece, e o referencial já trata esses atendimentos com valores diferentes. É um bom momento para reajustar e comunicar ao paciente.
O sinal de que o preço está funcionando, ou não
Preço é uma hipótese que precisa ser acompanhada ao longo do tempo. Os sinais mais diretos:
- Você aumentou o número de sessões por mês e a receita ficou parada? O preço por sessão está baixo, ou as faltas estão consumindo o ganho.
- Os atendimentos especializados, que justificariam preço maior, são mesmo os mais realizados, ou a agenda está cheia de atendimentos simples?
- Há pagamentos em aberto se acumulando? Preço muito baixo às vezes atrai inadimplência. Parece contraintuitivo, mas aparece nos números.
Responder a essas perguntas exige ter os números organizados. Com os registros certos, a decisão de preço deixa de ser intuição.
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