O paciente diz que o ombro dói menos, mas ainda evita carregar a sacola e precisa de ajuda para algumas tarefas. Você tem a intensidade da dor registrada. Falta uma medida que ajude a acompanhar o que acontece com o braço fora do consultório.
O QuickDASH ajuda a acompanhar essa função. Mas a conta precisa estar certa: dividir pelo número errado muda o resultado. E chamar o escore de “moderado” sem referência coloca no prontuário uma classificação que o instrumento não oferece.
Este guia mostra a conta com respostas fictícias, o que fazer quando falta um item e como levar a comparação para o prontuário. Ele complementa o guia de escalas e instrumentos de avaliação na fisioterapia.
O que o QuickDASH mede
O QuickDASH reúne 11 itens sobre função e sintomas dos membros superiores, respondidos pelo próprio paciente. É a versão reduzida do DASH, que tem 30 itens. O paciente informa o que consegue fazer e como os sintomas interferem na rotina.
Isso ajuda a acompanhar um paciente com tendinopatia do manguito rotador, por exemplo. O resultado entra junto da história clínica, do exame físico e das metas do tratamento. Ele mostra a dificuldade que o paciente percebe, sem localizar sozinho a lesão.
DASH ou QuickDASH?
| Aspecto | DASH | QuickDASH |
|---|---|---|
| Questionário principal | 30 itens | 11 itens |
| Resultado | 0 a 100 pontos | 0 a 100 pontos |
| Escolha prática | Mais perguntas, com maior precisão de medida segundo o Institute for Work & Health (IWH) | Menos perguntas para preencher, mantendo a avaliação de função e sintomas |
Defina qual vai usar no início e mantenha nas reaplicações. No estudo de Gummesson e colaboradores, com 105 pacientes, o QuickDASH ficou em média 4,2 pontos acima do DASH na avaliação inicial, calculado a partir das respostas das mesmas pessoas. Trocar a versão no meio do acompanhamento pode criar uma diferença no número que vem do questionário. Se precisar trocar, registre a mudança e use a nova versão como referência para as próximas comparações.
Use a versão brasileira e preserve as instruções
Use a versão em português do Brasil. Silva e colaboradores estudaram essa versão em 2020 e encontraram boa confiabilidade e capacidade de acompanhar mudanças em pessoas com condições traumáticas e não traumáticas dos membros superiores.
Preserve a redação, as alternativas e a referência à última semana do formulário oficial. Pedir apenas a situação de hoje muda a pergunta. Se o paciente não realizou uma atividade, a orientação do IWH é considerar sua capacidade de realizá-la.
Como calcular o QuickDASH
Cada resposta recebe de 1 a 5 pontos. Para o escore principal:
QuickDASH = [(soma das respostas ÷ número de itens respondidos) − 1] × 25
São necessários pelo menos 10 dos 11 itens. O resultado vai de 0 a 100. Quanto maior, maior a incapacidade e os sintomas. A fórmula está no manual do IWH, disponível em cópia institucional no WSIB.
Faça a conta nesta ordem: some, divida pela quantidade respondida, subtraia 1 e multiplique por 25. Deixe o arredondamento para o resultado final.
Exemplo preenchido: da avaliação à reavaliação
Os valores abaixo são fictícios, apenas para demonstrar o cálculo. A numeração acompanha os 11 itens do questionário oficial. Use a tabela para conferir a conta e o formulário oficial para aplicar ao paciente.
| Item | Avaliação inicial | Reavaliação |
|---|---|---|
| 1 | 4 | 2 |
| 2 | 3 | 2 |
| 3 | 4 | 3 |
| 4 | 3 | 2 |
| 5 | 2 | 1 |
| 6 | 4 | 3 |
| 7 | 3 | 2 |
| 8 | 3 | 2 |
| 9 | 3 | 2 |
| 10 | 2 | 1 |
| 11 | 2 | 2 |
| Soma | 33 | 22 |
| Itens respondidos | 11 | 11 |
Avaliação inicial: [(33 ÷ 11) − 1] × 25 = 50 pontos.
Reavaliação: [(22 ÷ 11) − 1] × 25 = 25 pontos.
Mudança: 25 − 50 = −25 pontos, ou redução de 25 pontos no escore.
Na conversa com o paciente, você pode partir desse resultado e perguntar quais tarefas ficaram mais fáceis e quais continuam difíceis. No prontuário, registre as duas datas, os dois escores e essa descrição funcional. O número ganha contexto quando aparece junto do que mudou na rotina.
E se uma resposta ficou em branco?
Considere outro exemplo: o paciente respondeu 10 itens, que somaram 30 pontos. A conta fica:
[(30 ÷ 10) − 1] × 25 = 50 pontos.
Se você dividir por 11, encontrará 43,18 e fará o resultado parecer melhor por um erro de cálculo. Também não preencha a lacuna com zero: esse valor nem faz parte das alternativas.
| Preenchimento do questionário principal | Como proceder |
|---|---|
| 11 respostas | Dividir a soma por 11 e completar a fórmula |
| 10 respostas | Dividir por 10 e registrar qual item ficou sem resposta |
| 9 respostas ou menos | Não calcular o escore principal |
Os módulos opcionais têm resultado separado
Há dois módulos opcionais: trabalho e esporte/música, com quatro itens cada. Eles ajudam a avaliar dificuldades em tarefas mais exigentes, que podem passar despercebidas no questionário principal. Cada módulo tem seu próprio resultado.
Em cada módulo, os quatro itens precisam estar respondidos. A fórmula é a mesma, com divisor 4. Se faltar uma resposta, não calcule aquele módulo. O escore principal continua válido se foi preenchido corretamente.
Exemplo fictício: respostas 2, 3, 3 e 4 no módulo de trabalho. Soma 12. [(12 ÷ 4) − 1] × 25 = 50 pontos.
Se o escore principal foi 25, registre “QuickDASH 25/100; módulo trabalho 50/100”. Somar os dois resultados produziria um número sem significado no instrumento.
Como interpretar sem inventar faixas de gravidade
O QuickDASH não tem faixas oficiais de incapacidade leve, moderada e grave, segundo o IWH. Evite transformar intervalos encontrados em uma tabela na internet em classificação do seu paciente.
Prefira escrever “QuickDASH 50/100, com dificuldade relatada nas tarefas descritas na avaliação” a atribuir uma gravidade sem referência. E 50 pontos não significam “50% do braço comprometido”: o escore não é uma porcentagem de perda anatômica ou de capacidade de trabalho.
Quanto de mudança é clinicamente importante?
Dois conceitos ajudam a interpretar a diferença entre aplicações:
- Mínima mudança detectável (MDC): quanto o escore precisa mudar para superar o erro de medida, com o nível de confiança usado no estudo.
- Diferença mínima clinicamente importante (MCID): quanto de mudança faz diferença para o paciente.
A revisão sistemática de Galardini e colaboradores, de 2024, propôs 12 a 15 pontos como faixa de MCID para o QuickDASH em condições musculoesqueléticas.
Já no estudo brasileiro de Silva e colaboradores, a MDC foi de 17,27 pontos, com 95% de confiança. As duas referências vêm de populações e métodos diferentes. A primeira ajuda a discutir relevância para o paciente, e a segunda, erro de medida.
Na prática, usando essas referências:
- Queda de 25 pontos, como no exemplo: supera a faixa de 12 a 15 e os 17,27 do estudo brasileiro. Confira se o ganho também aparece nas tarefas que eram difíceis para o paciente.
- Queda de 14 pontos: está na faixa de mudança clinicamente importante, mas abaixo da MDC encontrada na amostra brasileira. Olhe o que mudou na função e no exame antes de concluir só pelo escore.
- Queda de 8 pontos: pode refletir erro de medida. Compare com os demais achados e acompanhe a próxima reavaliação antes de atribuir melhora ao número.
A alta depende das metas funcionais e da avaliação clínica. O escore ajuda a sustentar essa decisão.
Os erros que alteram o resultado
Antes de salvar a pontuação no prontuário, confira estes seis pontos:
- Dividir por 11 quando há só 10 respostas. Use a quantidade de itens respondidos. No exemplo com soma 30, o divisor errado derruba o resultado de 50 para 43,18.
- Preencher resposta em branco com zero. Zero não é uma alternativa. Registre a ausência e aplique a regra de preenchimento mínimo.
- Perguntar sobre hoje em vez da última semana. Você muda o período avaliado e perde a referência das aplicações anteriores.
- Somar o módulo opcional ao escore principal. Trabalho e esporte/música têm resultados separados.
- Trocar DASH por QuickDASH no meio do tratamento e comparar os números diretamente. Parte da diferença pode vir da mudança de instrumento.
- Chamar o resultado de “moderado”. Essa faixa não é oficial. Registre a pontuação e as atividades em que o paciente relata dificuldade.
Como registrar no prontuário
Ao planejar a sessão de reavaliação, deixe definido qual instrumento vai reaplicar e mantenha o registro inicial acessível. Para organizar a comparação, anote:
- Versão e idioma do questionário.
- Data da aplicação e número de itens respondidos.
- Soma das respostas e escore calculado.
- Resultado anterior, com data, e diferença em pontos.
- Atividades que mudaram e limitações que permanecem.
- Módulos opcionais, quando utilizados, em separado.
Um registro possível, usando as respostas fictícias da tabela, seria:
Reavaliação de 01/10/2026. QuickDASH, versão brasileira: 11/11 itens respondidos, soma 22, escore 25/100. Na avaliação de 01/09/2026: soma 33, escore 50/100. Redução de 25 pontos. Paciente relata maior facilidade para as tarefas domésticas, mantendo dificuldade para carregar compras. Módulos opcionais não aplicados. Resultado discutido com o paciente e considerado na revisão das metas funcionais.
As datas ilustram o registro. Defina o intervalo de reaplicação conforme o caso. Se você organiza a evolução pelo método SOAP, identifique o escore como resultado do questionário respondido pelo paciente e acrescente sua interpretação clínica. Assim, o próximo profissional consegue entender a conta e a decisão tomada a partir dela.
No Clinvo, você pode registrar o escore calculado e sua interpretação na evolução do paciente e consultar os registros anteriores no prontuário. Assim, a avaliação inicial e as reavaliações ficam vinculadas à mesma pessoa, com as datas e o contexto de cada atendimento. Teste grátis por 14 dias, sem cartão de crédito.