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Quanto ganha um fisioterapeuta autônomo de verdade? A conta que ninguém faz antes de abrir o consultório

O faturamento bruto impressiona. O líquido, depois de descontar tudo, às vezes surpreende — para baixo. Veja a conta completa que todo fisioterapeuta autônomo deveria fazer antes de tomar decisões financeiras.

“Cobro R$ 150 por sessão, atendo 6 por dia, 5 dias por semana. São R$ 4.500 por semana, quase R$ 18.000 por mês.”

Essa conta aparece muito — em conversas, em grupos de WhatsApp, em posts de fisioterapeutas que estão considerando abrir o próprio consultório.

O problema é que essa conta está errada.

Não porque os números são falsos. Mas porque ela para no faturamento bruto e não chega no número que realmente importa: o que sobra.

A conta completa do fisioterapeuta autônomo

Vamos usar um exemplo real e conservador: fisioterapeuta que cobra R$ 120 por sessão, atende em média 5 sessões por dia, 22 dias úteis por mês.

Faturamento bruto: R$ 120 × 5 × 22 = R$ 13.200/mês

Parece bom. Agora a conta que a maioria não faz:

Custos fixos mensais

ItemValor estimado
Aluguel de sala (meio período)R$ 800 a R$ 1.500
Anuidade CREFITO (mensal)R$ 80 a R$ 120
DAS MEI ou Simples NacionalR$ 70 a R$ 400
Material clínico (luvas, lençol, gel)R$ 150 a R$ 300
Celular e internetR$ 120 a R$ 200
Marketing (anúncios, site, Google Meu Negócio)R$ 0 a R$ 500
Total estimadoR$ 1.220 a R$ 3.020

Usando os valores intermediários: R$ 2.120 em custos fixos.

Faturamento líquido antes das faltas: R$ 13.200 − R$ 2.120 = R$ 11.080

O impacto das faltas

Com 5 atendimentos por dia e uma taxa de falta de 15% — conservadora para quem não usa lembrete automático —, você perde em média 16 sessões por mês.

R$ 120 × 16 = R$ 1.920 em receita não realizada por mês.

Esse dinheiro não aparece em nenhum extrato. Não é despesa registrada. Mas saiu do seu bolso.

Após faltas: R$ 11.080 − R$ 1.920 = R$ 9.160

O que falta na conta

Dois itens que a maioria não considera:

Férias e ausências. Você tem direito a tirar férias, ficar doente, participar de um congresso. Dividindo por 12 meses e considerando 20 dias de ausência ao longo do ano, você perde aproximadamente R$ 800/mês em média anualizada.

Previdência. CLT tem INSS obrigatório. Autônomo só tem contribuição se fizer por conta própria. Se você não está contribuindo para a aposentadoria, está adiando uma conta que vai chegar — ou transferindo esse custo para o futuro. Para simplificar: INSS mínimo autônomo gira em torno de R$ 220/mês.

Após ajustes: R$ 9.160 − R$ 800 − R$ 220 = R$ 8.140/mês

R$ 8.140 não é ruim. Mas é muito diferente de R$ 18.000.

E esse é o ponto: a distância entre o faturamento bruto que aparece na conta rápida e o líquido real pode ser de 50% a 60%. Quem planeja baseado no bruto vai se frustrar — ou pior, vai tomar decisões erradas sobre quanto pode gastar, investir ou guardar.

Por que a conta piora com o tempo se você não gerencia

O número acima assume que você atende com consistência, cobra de todos os pacientes, tem poucos inadimplentes e controla os custos.

Na prática, o que acontece sem gestão:

  • Inadimplência invisível: pacientes que pagam “na próxima” e nunca pagam. Sem registro, você não sabe quem está devendo.
  • Custos que crescem sem perceber: material clínico comprado sem controle, assinaturas esquecidas, aluguel de sala para horários que você não usa.
  • Faturamento de pico que esconde sazonalidade: julho e janeiro costumam ser meses ruins para clínicas (férias escolares, período de festas). Quem não olha a tendência ao longo do ano não se prepara.
  • Precificação defasada: você não reajustou o valor da sessão em 2 anos porque não sabe ao certo se os pacientes aceitariam. Sem dado de demanda, não tem base para a decisão.

A diferença que a visibilidade faz

Um fisioterapeuta que acompanha os próprios dados — faturamento por mês, taxa de inadimplência, taxa de falta, custos por categoria — toma decisões diferentes de quem opera por intuição.

Não precisa ser complexo. Você precisa saber, todo mês:

  1. Quanto entrou de fato (não quanto faturou — quanto recebeu)
  2. Quanto saiu em custos
  3. Quantas sessões foram perdidas por falta
  4. Quem está com pagamento em aberto

Com esses quatro números, você tem visibilidade real. E com visibilidade, você pode aumentar preço no momento certo, cortar custo que não justifica, e parar de perder dinheiro com faltas que eram evitáveis.

Como ter esses números sem planilha

A resistência de muita gente a acompanhar o financeiro é o trabalho de manter a planilha atualizada. Cruzar agendamentos com pagamentos, lembrar de registrar o Pix que caiu às 14h, somar coluna por coluna.

Quando cada sessão agendada está vinculada a um registro de pagamento no sistema, esse trabalho some. Você não precisa somar nada — o sistema soma por você. O que aparece no relatório é o dado real, não a estimativa.

Essa é a diferença entre saber quanto você ganha de verdade e achar que sabe.


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