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Ficha de exercícios domiciliares: modelo pronto e como prescrever para o paciente realmente fazer

O modelo campo a campo da ficha de exercícios para casa, quantos exercícios prescrever segundo a evidência, a regra da dor que o paciente entende — e o que acontece na sessão que muda a adesão mais do que o papel.

Você fecha a avaliação, monta um programa caprichado, imprime a folha, demonstra cada exercício e entrega. Uma semana depois, na pergunta de sempre — “conseguiu fazer em casa?” —, vem a resposta de sempre: “fiz uns dias”. Você olha para a folha que voltou dobrada no fundo da bolsa e entende o que aconteceu.

Não é só falta de vontade do paciente, e não é só a sua folha. A não adesão a programas de exercício domiciliar em fisioterapia chega a 70%, segundo uma revisão sistemática de 2017 sobre o tema. Em idosos, num levantamento de 23 ensaios clínicos de programas domiciliares para prevenção de quedas, apenas 21% dos participantes foram totalmente aderentes. Esse é o terreno real onde a sua prescrição cai.

Este artigo tem duas partes: a ficha em si — campo a campo, com modelo pronto para adaptar — e o que a evidência mostra sobre o que de fato muda a adesão. Adianto o final: quase nada disso está no papel.

Quantos exercícios prescrever (e o mito do “2 versus 8”)

A recomendação mais defensável hoje vem de uma revisão sistemática de 2018, de Bachmann e colaboradores, que avaliou 14 estudos sobre adesão a exercício domiciliar e concluiu pela instrução de 2 a no máximo 4 exercícios, com nível de recomendação B+. Prescrever mais de quatro apareceu como fator com efeito negativo sobre a adesão.

Vale conhecer a base, porque ela circula distorcida. Você provavelmente já leu que “um estudo mostrou que quem recebe 2 exercícios adere mais do que quem recebe 8”. O estudo existe — Henry e colaboradores, 1999 —, mas não foi isso que ele encontrou. Foram 15 idosos saudáveis vivendo na comunidade, não pacientes, randomizados para 2, 5 ou 8 exercícios. O grupo dos 2 exercícios executou melhor os exercícios; na adesão autorrelatada, não houve diferença entre os grupos. Os próprios autores encerram dizendo que a questão do número ideal precisa de mais pesquisa.

A formulação honesta é esta: a recomendação de 2 a 4 exercícios tem apoio razoável e vem de uma revisão sistemática; o famoso estudo do “2 versus 8” mediu qualidade de execução, não adesão.

Na prática clínica isso muda pouco a conduta e muda bastante o discurso. Você não precisa prometer ao paciente que a lista curta é cientificamente superior. Precisa saber que lista curta é a aposta melhor — e que a razão mais forte para encurtar talvez nem seja a adesão, e sim o fato de que ninguém executa oito exercícios direito sem supervisão.

Um dado ajuda a calibrar onde está o problema. Num estudo com 184 pacientes com dor cervical e lombar crônica, a adesão à duração de cada sessão foi de cerca de 71%, enquanto a adesão à frequência semanal ficou em torno de 61%. Quando o paciente faz, ele tende a fazer o tempo certo. O que ele perde é o dia. O inimigo não é o exercício difícil, é a rotina.

Os campos da ficha

Independentemente da condição, uma ficha de exercícios domiciliares se sustenta quando tem:

  • Identificação — nome do paciente, seu nome com o número do CREFITO e a data de emissão. É documento clínico, não bilhete.
  • Objetivo do programa, em linguagem do paciente. Não “ganho de força de glúteo médio”, e sim “reduzir a dor ao subir escada”. O paciente adere ao que ele entende que resolve o problema dele.
  • Cada exercício com quatro elementos: nome, posição inicial, execução (o movimento e o que evitar) e dose.
  • A dose completa — séries, repetições ou tempo de sustentação, e a frequência semanal. Aqui vale emprestar a lógica do FITT (frequência, intensidade, tempo e tipo), o padrão consolidado de prescrição de exercício: se algum desses elementos falta na sua ficha, o paciente vai improvisar.
  • A regra de dor — quanto de desconforto é aceitável e o que fazer se passar disso.
  • Sinais de alerta — o que interrompe o exercício e motiva contato com você.
  • Data de revisão. Programa domiciliar sem data de revisão vira programa eterno, e programa eterno é abandonado.

O que não deve estar na ficha: uma lista de dez exercícios “para o paciente escolher”. Escolher é trabalho seu.

Modelo pronto

[Cabeçalho: nome da clínica, endereço, telefone]

PROGRAMA DE EXERCÍCIOS DOMICILIARES

Paciente: [nome] — Data: [data] — Revisão prevista: [data]

Objetivo: [em linguagem do paciente — ex.: “diminuir a dor no ombro ao levantar o braço e recuperar o movimento para pentear o cabelo”]


1. [Nome do exercício] Posição inicial: [descrição] Execução: [movimento, ritmo, o que evitar] Dose: [séries] x [repetições] — [tempo de sustentação, se houver] Frequência: [ex.: 1x ao dia, 5 dias por semana]

2. [Nome do exercício] [mesma estrutura]

3. [Nome do exercício] [mesma estrutura]


Quanto de dor é aceitável: você pode sentir desconforto durante o exercício, até o nível 5 numa escala de 0 a 10. A dor deve diminuir depois e estar normalizada na manhã seguinte. Se acordar pior do que no dia anterior, reduza a carga ou o número de repetições e me avise na próxima sessão.

Pare e entre em contato se: a dor aumentar de uma semana para a outra, surgir inchaço, formigamento, perda de força ou dor durante a noite.

Dúvida sobre qualquer exercício: [seu contato]


[Nome do fisioterapeuta] — CREFITO [número]

Três observações sobre o modelo. O espaço reservado a três exercícios não é diagramação, é a recomendação. A data de revisão faz parte do documento, não da sua memória. E o campo de dor merece um parágrafo próprio.

A regra da dor — de onde ela vem e até onde vale

O parâmetro “até 5 na escala de 0 a 10, com a dor normalizando até a manhã seguinte e sem piora de semana para semana” tem origem identificável: é o modelo de monitoramento da dor descrito originalmente por Thomeé, no contexto de dor patelofemoral, e modificado por Silbernagel e colaboradores num ensaio clínico de 2007 com pacientes com tendinopatia de Aquiles. Naquele estudo, os pacientes que continuaram a atividade esportiva sob essa regra não tiveram desfecho pior do que os que fizeram repouso ativo — a conclusão é de segurança, não de superioridade.

Isso importa por dois motivos. O primeiro é de honestidade: a regra nasceu em contextos específicos, e aplicá-la a qualquer condição é uma extensão, ainda que razoável e amplamente praticada. O segundo é clínico, e é o mais útil: essa regra dá ao paciente um critério para decidir sozinho, em casa, no momento em que a dúvida aparece. Sem ela, o paciente só tem duas opções mentais — “dor é normal, vou empurrar” ou “doeu, parei tudo”. As duas custam caro.

Se você já trabalha educação em dor com seus pacientes, a regra encaixa naturalmente: ela transforma a dor de sinal de perigo em informação de dosagem. E vale registrar a dor referida em casa com a mesma escala que você já usa na sessão, para os dois números serem comparáveis.

O que realmente move a adesão (e não está na folha)

Aqui está a parte incômoda. A revisão sistemática mais cética sobre o tema, de McLean e colaboradores, conclui que há evidência forte de que estratégias de adesão não são eficazes para melhorar a adesão de longo prazo ao exercício domiciliar. Intervenções digitais têm retrato parecido: uma revisão de 2022 com 10 ensaios clínicos encontrou benefício sobretudo no curto prazo, com certeza de evidência baixa a moderada. Num ensaio com pacientes pós-AVC, vídeo em tablet com lembrete automático teve diferença de adesão de 2% em relação ao papel — ou seja, nenhuma.

A tradução prática: trocar a folha impressa por um vídeo bonito não resolve o problema. O que aparece com efeito mais consistente é bem menos glamouroso e acontece dentro da sessão.

No mesmo estudo com 184 pacientes com dor crônica, dois comportamentos do fisioterapeuta se destacaram na análise ajustada:

Comportamento na sessãoEfeito na adesão
Esclarecer as dúvidas do paciente sobre o programaChance cerca de 4x maior de aderir à frequência prescrita
Supervisionar o paciente enquanto ele aprende os exercíciosChance cerca de 3x maior de aderir à duração prescrita

Ou seja: os cinco minutos que você gasta vendo o paciente executar e respondendo “e se doer?” valem mais do que o design da ficha. Entregar a folha e explicar é uma coisa; ver o paciente fazer, corrigir e perguntar “o que pode atrapalhar você de fazer isso em casa?” é outra.

A literatura sobre barreiras converge para o mesmo ponto. Uma revisão de 20 estudos de alta qualidade encontrou evidência forte associando má adesão a baixa autoeficácia, depressão, ansiedade, sensação de desamparo, pouco suporte social, mais barreiras percebidas e maior dor durante o exercício. Quase tudo nessa lista é conversa, não papel. E quase tudo é detectável na sessão, se você perguntar.

Uma meta-análise recente com quase 30 mil participantes reforça: autoeficácia, motivação e sensação de controle sobre o próprio comportamento estão entre os preditores mais fortes de adesão. Traduzindo para a sua sala: o paciente que sai entendendo por que faz, sabendo o que fazer se doer e confiante de que consegue executar adere mais do que o paciente que sai com uma folha melhor. É a mesma lógica que sustenta a educação do paciente como ferramenta de retenção — e que explica boa parte dos pacientes que somem no meio do tratamento.

Como medir adesão sem depender do “fiz uns dias”

Se você quiser sair do achismo, existe instrumento validado em português: a EARS-Br (Exercise Adherence Rating Scale, versão brasileira), adaptada e validada em 2020 com pacientes com lombalgia crônica inespecífica. São seis itens sobre o comportamento de fazer os exercícios, com pontuação de 0 a 24 e ponto de corte de 17 para adesão considerada aceitável. A mudança mínima importante identificada foi de 5,5 pontos.

Não é obrigatório aplicar uma escala para acompanhar programa domiciliar. Mas ter um número no lugar de uma impressão muda a conversa — com o paciente e com você mesmo, quando o tratamento não anda e você precisa saber se o problema é a conduta ou a execução. É a mesma lógica de medir a evolução em vez de achar que o paciente melhorou.

O registro no prontuário

O programa domiciliar não é um extra fora do prontuário. Ele é procedimento fisioterapêutico proposto e, como tal, integra o plano terapêutico — cujo registro é obrigatório pela Resolução COFFITO 414/2012, que exige a descrição dos procedimentos propostos, com os recursos, métodos e técnicas utilizados, e a descrição da evolução e do tratamento realizado em cada atendimento. O registro completo do prontuário tem outros requisitos além desse, mas este é o que costuma ficar de fora.

Na prática, o mínimo que precisa constar:

  • Quais exercícios foram prescritos e em que dose, na sessão em que foram prescritos.
  • A revisão do programa — quando mudou, o que mudou e por quê.
  • O relato de adesão do paciente, sessão a sessão, no S do registro SOAP. “Refere ter feito 3x na semana, sem dor além do combinado” é informação clínica. “Fez em casa” não é.

Isso resolve um problema recorrente: o paciente não evolui e você não consegue distinguir se a conduta está errada ou se ela simplesmente não foi executada. Sem registro de dose e de adesão, as duas hipóteses parecem iguais no prontuário — e você acaba trocando uma conduta que estava certa.

Um roteiro de dois minutos para fechar a sessão

Junte tudo e o fechamento da sessão em que você prescreve fica assim:

  1. Demonstre e veja o paciente executar cada exercício — não apenas demonstre.
  2. Pergunte o que pode atrapalhar ele de fazer em casa. A resposta costuma ser específica e resolvível (“não tenho onde deitar de manhã”).
  3. Combine a regra de dor em voz alta, com as suas palavras, e escreva na ficha.
  4. Pergunte se ficou alguma dúvida — e espere a resposta. É o comportamento com maior efeito documentado da lista.
  5. Registre na evolução o que foi prescrito, em que dose, e a data de revisão.

Nenhum desses passos exige material novo. Quatro deles são conversa, e o quinto é registro.


No Clinvo, o programa domiciliar prescrito fica registrado na evolução da sessão, com a dose e a data de revisão, e você pode anexar a foto ou o vídeo do exercício ao prontuário do paciente. Na sessão seguinte, o que foi combinado está na tela — e a pergunta “conseguiu fazer em casa?” passa a ter uma referência concreta para comparar. Teste grátis por 14 dias, sem cartão de crédito.

Perguntas frequentes

Quantos exercícios domiciliares devo prescrever?
Uma revisão sistemática de 2018 (Bachmann e colaboradores) recomenda instruir de 2 a no máximo 4 exercícios, com nível de recomendação B+, apoiada em três estudos que encontraram menor adesão quando mais de quatro exercícios eram prescritos. Não existe ensaio clínico desenhado especificamente para responder a essa pergunta, então trate como boa recomendação prática, não como lei — mas a direção da evidência é clara: lista curta.
O que deve constar na ficha de exercícios domiciliares?
Identificação do paciente e do profissional com CREFITO, o objetivo do programa em linguagem do paciente, cada exercício com nome, posição inicial, execução e dose (séries, repetições, tempo de sustentação) mais a frequência semanal, a regra de dor aceitável, os sinais de alerta para interromper e procurar o fisioterapeuta, e a data de revisão do programa. Imagem ou vídeo de cada exercício ajuda, mas não substitui a demonstração na sessão.
Qual o limite de dor aceitável durante o exercício domiciliar?
O modelo de monitoramento da dor mais citado — descrito originalmente por Thomeé para dor patelofemoral e modificado por Silbernagel e colaboradores em tendinopatia de Aquiles — permite dor de até 5 numa escala de 0 a 10 durante e após o exercício, desde que ela ceda até a manhã seguinte e não aumente de semana para semana. É um parâmetro de segurança testado nesses contextos específicos; estender a outras condições exige julgamento clínico.
Preciso registrar os exercícios domiciliares no prontuário?
O programa domiciliar é procedimento fisioterapêutico proposto e integra o plano terapêutico, cujo registro é obrigatório pela Resolução COFFITO 414/2012. Na prática, registrar quais exercícios foram prescritos, em que dose e quando o programa foi revisado é o que permite distinguir uma conduta errada de uma conduta que simplesmente não foi executada — e o que sustenta a sua decisão se ela for questionada depois.

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