A conta que quase todo dono de clínica faz ao contratar é essa: 30 horas por semana, sessão de uma hora, logo 30 pacientes por semana por profissional. Multiplica pelo valor da sessão e monta a projeção de faturamento em cima disso.
Essa conta nunca fecha. Não porque o profissional está enrolando, mas porque a jornada inclui coisas que não são atendimento — e a grade precisa caber dentro dela, não em cima dela.
O resultado aparece dois meses depois: a projeção não bate, o fisioterapeuta reclama que não tem tempo para evoluir prontuário e a agenda tem buracos que ninguém percebeu.
A regra em uma linha — e o que ela não diz
A Lei 8.856/1994 fixa a jornada de fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais em 30 horas semanais. É jornada de trabalho, não meta de atendimento.
O que a lei não resolve para você:
- Como distribuir as 30h. Pode ser 5 dias de 6h, 4 dias de 7h30, turnos alternados. A lei não escolhe.
- Quanto disso é atendimento direto. Evolução, reavaliação, contato com paciente e reunião de equipe são trabalho e contam na jornada.
- Sócio e autônomo. Quem é dono ou presta serviço como PJ não tem jornada imposta. Ainda assim vale usar as 30h como referência de grade — é o que a equipe compara.
A conta real: quantas sessões cabem em 30 horas
Comece pelo tempo de porta a porta, não pelo tempo de sessão. Entre um paciente e o próximo existe higienização de maca, anotação e o atraso normal de quem chega tarde. Ignorar esses minutos é o que transforma a grade no papel em atraso acumulado às 17h.
Com jornada de 6h/dia em 5 dias:
| Duração da sessão | Intervalo | Ciclo por paciente | Sessões/dia | Sessões/semana |
|---|---|---|---|---|
| 30 min | 10 min | 40 min | 9 | 45 |
| 40 min | 10 min | 50 min | 7 | 35 |
| 50 min | 10 min | 60 min | 6 | 30 |
| 60 min | 15 min | 75 min | 4 a 5 | 22 a 24 |
Esses números são o teto da grade, com a jornada 100% preenchida por atendimento. Nenhuma clínica opera nesse teto de forma sustentável.
O tempo que ninguém coloca na escala
Do teto acima, descontar:
Evolução da sessão. Entre 3 e 5 minutos por paciente quando o prontuário é digital e tem modelo pronto. Bem mais quando é papel ou texto livre em branco. Com 6 atendimentos por dia, são 20 a 30 minutos diários — meia hora que só existe na jornada se alguém reservar.
Primeira consulta é mais longa. Avaliação inicial com anamnese completa costuma levar 60 a 90 minutos. Se a grade trata avaliação e sessão de manutenção como blocos iguais, todo paciente novo gera atraso no resto do dia.
Reavaliação periódica. A cada 8 ou 10 sessões o paciente precisa de reaplicação de teste e escala. É atendimento mais longo, previsível — e quase nunca aparece na escala.
Contato com paciente e outros profissionais. Responder dúvida no WhatsApp, falar com o médico que encaminhou, escrever relatório para convênio.
Somando: reserve de 10% a 20% da jornada para tempo não assistencial. Na prática, uma grade de 30 slots semanais de 50 minutos vira uma meta realista de 24 a 27 sessões. É esse número que deve entrar na projeção de faturamento — não o teto.
Três formatos de escala que funcionam
5 × 6h — o padrão. Seis horas por dia, cinco dias. Distribui bem, mantém presença diária na clínica e fica exatamente no limite do intervalo intrajornada: acima de 6h, a CLT (art. 71) exige 1 hora de pausa. Bom quando você tem sala por profissional.
4 × 7h30 — a folga no meio da semana. Concentra a jornada em quatro dias. Atrai profissional que também atende domicílio ou dá aula. O custo: cada dia passa de 6 horas, então entra a hora de intervalo obrigatória — o profissional fica 8h30 na clínica para trabalhar 7h30. E um dia de falta em bloco tira 25% da capacidade da semana.
Turnos alternados — quando a sala é o gargalo. Dois profissionais dividem a mesma sala: um de manhã, outro de tarde. Dobra o faturamento por metro quadrado sem obra. Exige agenda visível para os dois e regra clara de quem fica com o encaixe do horário de virada.
A pergunta que define o formato não é a preferência do profissional. É qual recurso é escasso na sua clínica: se falta sala, alterne turnos; se falta paciente, concentre a grade nos horários de maior procura em vez de espalhar slots vazios por toda a semana.
Onde a escala vaza dinheiro
Numa clínica com equipe, o prejuízo raramente está no valor da sessão. Está na hora reservada que não virou atendimento.
Um exemplo com números redondos, para você refazer com os seus: fisioterapeuta CLT com custo total de R$ 4.800/mês (salário mais encargos) e jornada de 120h/mês custa R$ 40 por hora contratada. Se 20% da grade fica vazia, são 24 horas por mês — R$ 960 que saíram do caixa sem contrapartida. Se a sessão é vendida a R$ 120, a mesma ociosidade representa cerca de R$ 2.880 de receita que a grade oferecia e não foi realizada.
As três fontes mais comuns de vazamento:
Buraco por cancelamento não preenchido. O paciente desmarca na véspera, o slot fica aberto e ninguém da recepção sabe que existe vaga para oferecer a quem está na lista de espera. Com dois ou três profissionais, essa informação só circula se a agenda for centralizada.
Falta sem política. Falta que não é cobrada nem reposta é hora paga e não faturada. É o vazamento mais silencioso porque não aparece em nenhum relatório — o horário simplesmente não existiu.
Grade espalhada. Slots abertos em horários que ninguém quer (10h de uma terça) e fila de espera nos horários que todos querem (depois das 18h). A capacidade total parece suficiente, mas está no lugar errado.
Checklist para montar ou revisar a escala
- Defina a duração do ciclo por paciente, não da sessão — inclua o intervalo.
- Bloqueie 10% a 20% da jornada para evolução, reavaliação e contato. Bloqueio explícito na agenda, não “quando der”.
- Crie um tipo de horário mais longo para avaliação inicial e outro para reavaliação periódica.
- Confira o intervalo intrajornada: passou de 6h/dia, entra 1 hora de pausa.
- Concentre a grade nos horários de maior procura antes de abrir os de menor.
- Meça a ocupação todo mês: sessões realizadas ÷ slots oferecidos. Abaixo de 80%, o problema é escala ou demanda — e são soluções diferentes.
- Tenha uma regra escrita para o slot que abre em cima da hora: quem oferece, para quem, e em quanto tempo.
A escala não é um documento que você escreve uma vez. É um número que você acompanha — e a maioria das clínicas com equipe nunca mediu a própria ocupação porque a informação está espalhada em três agendas diferentes.
No Clinvo, cada fisioterapeuta tem a própria grade de horários e a recepção enxerga todas num painel único — o slot que abre por cancelamento fica visível na hora, para quem pode preencher. Os horários recorrentes montam a escala fixa do paciente de uma vez, e o relatório de comparecimento mostra a ocupação real de cada profissional no mês, sem cruzar planilha.
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