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Escala de Borg: 6 a 20 ou 0 a 10 (modificada)? Como escolher, aplicar e registrar

A escala de Borg são dois instrumentos: a 6–20, de percepção de esforço, e a 0–10 (CR10), a 'Borg modificada' da dispneia. Qual usar em cada caso, por que não existe conversão entre elas, como perguntar sem enviesar, como ler o resultado e como registrar no prontuário.

O paciente termina vinte minutos de esteira, você pergunta como ele está, e a resposta é “tá bom”. Na evolução vira “tolerou bem o treino aeróbio”. Duas semanas depois, outro colega atende o mesmo paciente, aumenta a velocidade, e ninguém consegue dizer se o esforço de hoje é maior ou menor que o daquele dia.

A escala de Borg existe para trocar o “tá bom” por um número que dá para comparar. O problema é que, debaixo do mesmo nome, há duas escalas diferentes, e boa parte dos registros mistura as duas.

Duas escalas com o mesmo nome

Gunnar Borg, psicólogo sueco, criou as duas em momentos diferentes e com objetivos diferentes.

Escala de 6 a 20 (RPE)Escala de 0 a 10 (CR10)
Publicada em19701982
O que perguntaPercepção de esforço do corpo inteiroIntensidade de uma sensação: falta de ar, fadiga, esforço
Números15 valores inteiros, de 6 a 20De 0 a 10, aceita decimais e tem uma marca acima do 10 para “mais do que tudo”
Como cresceQuase em linha reta com a carga e a frequência cardíacaPor razão: o salto entre os números do alto é maior que entre os de baixo
Uso mais comumExercício aeróbio, condicionamento, reabilitação cardíacaDispneia, fadiga de membros inferiores, testes de caminhada

O intervalo estranho da primeira tem uma razão: Borg montou a escala para que, em adultos jovens e saudáveis, o número vezes 10 ficasse perto da frequência cardíaca durante o exercício. É só uma aproximação, e ela some em idosos e em quem usa medicamento que controla a frequência.

A segunda é a que aparece no Brasil como “escala de Borg modificada”, quase sempre aplicada à falta de ar. O nome muda de um serviço para outro (CR10, Borg modificada, Borg de dispneia), e é por isso que o registro precisa dizer o intervalo da escala, não só “Borg”.

Por que não dá para converter uma na outra

É tentador fazer a conta: 15 de 20 seria 7,5 de 10. Não é. As duas escalas não compartilham a mesma métrica: uma cresce de forma linear e a outra por razão, e nenhuma fórmula leva de uma à outra com segurança.

Na prática, isso tem uma consequência só: escolha uma escala por paciente e por objetivo, e use sempre a mesma. Se a avaliação foi feita na de 0 a 10, a reavaliação é na de 0 a 10, mesmo que outra pessoa atenda.

Qual usar em cada situação

SituaçãoEscalaPor quê
Condicionamento aeróbio, treino em esteira ou bicicleta6 a 20Foi feita para o esforço global e acompanha a carga
Reabilitação cardíaca, principalmente com betabloqueador ou fibrilação atrial6 a 20Quando a frequência cardíaca deixa de refletir o esforço, a percepção vira o principal parâmetro
DPOC, asma, pós-internação: falta de ar0 a 10É a escala da dispneia na literatura respiratória
Teste de caminhada de 6 minutos0 a 10As diretrizes da American Thoracic Society (2002) pedem dispneia e fadiga antes e depois do teste
Fortalecimento com carga baixa e treino com restrição de fluxo0 a 10Ajuda a dosar a carga quando não há 1RM, como no treino com restrição de fluxo sanguíneo
CriançaEscala própria, com figurasPara crianças existem escalas pediátricas, como a EPEC, validada em português

A escala de Borg também não substitui a mMRC. As duas falam de falta de ar, mas medem coisas diferentes: a mMRC gradua o quanto a dispneia limita o dia a dia, e a Borg mede a falta de ar daquele momento, no esforço. Na avaliação de um paciente respiratório as duas costumam entrar, como mostra o texto sobre prontuário em fisioterapia respiratória e cardiopulmonar.

Como aplicar sem enviesar a resposta

A escala é simples. O que estraga a medida é o jeito de perguntar.

  1. Explique uma vez, com a escala na mão. Na primeira sessão, mostre a escala inteira, diga o que significam as pontas e deixe o paciente olhar os números enquanto você explica.
  2. Diga exatamente o que está perguntando. Na de 6 a 20, é o esforço do corpo inteiro, não só das pernas ou do fôlego. Na de 0 a 10 aplicada à dispneia, é só a falta de ar. Quem responde a escala de dor toda sessão tende a responder dor; avise que a pergunta agora é outra.
  3. Pergunte no momento certo. No treino, no último minuto de cada etapa ou ao final da carga, com o paciente ainda em esforço. No teste de caminhada, antes de começar e logo ao terminar. Depois de dois minutos sentado, a resposta já é de recuperação.
  4. Use pergunta neutra. “Qual número descreve seu esforço agora?” funciona. “Tá tranquilo, né?” já traz a resposta junto.
  5. Mostre a escala toda vez. De memória, o paciente arredonda e repete o número da semana anterior.
  6. Não corrija o paciente. Se ele diz 11 num esforço que você julgaria 15, anote 11 e anote também o que você viu: fala entrecortada, frequência cardíaca, saturação. A discordância entre as duas coisas é informação clínica.

Como interpretar

Escala de 6 a 20

As diretrizes do Colégio Americano de Medicina do Esporte (ACSM, 10ª edição, 2018) usam estas faixas:

Borg (6 a 20)Intensidade
Abaixo de 9Muito leve
9 a 11Leve
12 a 13Moderada
14 a 17Vigorosa
18 a 20Próxima do máximo

O maior estudo sobre a relação entre a escala e os marcadores fisiológicos, com 2.560 pessoas testadas em esteira ou bicicleta (Scherr e colaboradores, 2013), encontrou o limiar de lactato em torno de 10,8 e o limiar anaeróbio individual em torno de 13,6. O mesmo estudo mostra a ressalva que importa: a variação foi de quase 2 pontos para cada lado. Para um paciente, 13 pode estar abaixo do limiar; para outro, acima. A escala orienta a intensidade, e quem fecha a leitura é o conjunto com frequência cardíaca, saturação e o que você observa.

Escala de 0 a 10

Aqui, o paciente é comparado com ele mesmo: o número antes e depois do esforço, e o número desta semana contra o da avaliação. Na dispneia, uma variação de cerca de 1 ponto já é considerada clinicamente importante (Ries, 2005). Um paciente com DPOC que terminava a caminhada em 6 e passa a terminar em 4, na mesma distância, melhorou de um jeito que ele sente.

Como registrar no prontuário

O número sem contexto não serve para nada na sessão seguinte. “Borg 13” não diz se foi a 4 ou a 6 km/h, no começo ou no fim, na de 6 a 20 ou na de 0 a 10. O registro útil traz quatro coisas: a escala usada, o momento da pergunta, a carga e o que mais você mediu.

No formato SOAP, fica assim:

S: Refere cansaço nas pernas no fim do treino, sem falta de ar ao subir a escada de casa nesta semana.

O: Esteira 4,5 km/h, inclinação 2%, 20 min. FC 98 bpm antes e 112 bpm no fim; SpO₂ 96% e 95%. Borg (6 a 20) no fim: 13. Dispneia (Borg 0 a 10): 1 antes e 3 no fim.

A: Esforço moderado, compatível com a meta; dispneia leve, sem dessaturação.

P: Manter a velocidade e progredir para 25 min na próxima sessão.

Com esse registro, quem atender na semana seguinte sabe o ponto de partida. E, junto com a EVA e as outras escalas de acompanhamento, a evolução do paciente passa a ser lida em números, não em impressões.

Erros que estragam a medida

  • Trocar de escala no meio do tratamento. Avaliação na de 0 a 10 e reavaliação na de 6 a 20 não se comparam.
  • “Converter” um número no outro. Não existe conta válida entre as duas.
  • Usar a de 6 a 20 para falta de ar. O paciente mistura fôlego e cansaço muscular, e o número não mede nenhum dos dois.
  • Perguntar depois do descanso. A resposta passa a medir a recuperação, não o esforço.
  • Anotar só “Borg”. Sem o intervalo da escala, o próximo profissional não sabe se 6 é muito pouco ou muito.
  • Usar a escala de adulto com criança pequena ou com paciente que não entende a escala. Nesses casos, a escala pediátrica com figuras ou a observação clínica registrada valem mais que um número forçado.

Antes de imprimir a escala

As duas escalas são marcas registradas. As versões oficiais em português do Brasil, com o texto de cada ponto, são distribuídas sob licença pela Borg Perception, a empresa sueca que detém os direitos. A licença não permite alterar o texto da escala e exige a linha de direitos autorais em publicações. É por isso que este texto descreve a escala sem reproduzir a frase de cada número. Se a clínica vai imprimir a escala ou colocá-la num material próprio, vale conferir as condições no site da empresa.


No Clinvo, a ficha de evolução personalizável aceita um campo de escala com o intervalo que você escolher: de 6 a 20 para o esforço, de 0 a 10 para a dispneia, com as faixas de leitura que você definir. Para registrar meio ponto na escala de 0 a 10, use um campo de número com passo de 0,5. O valor fica em cada evolução do paciente, em ordem de data, ao lado da carga e do resto do registro. Os modelos de ficha personalizáveis estão nos planos Profissional e Clínica, em Configurações › Modelos de Fichas Clínicas. Teste grátis por 14 dias, sem cartão de crédito.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre a escala de Borg de 6 a 20 e a de 0 a 10?
São dois instrumentos diferentes, criados por Gunnar Borg. A de 6 a 20 (RPE, de 1970) mede a percepção de esforço do corpo inteiro durante o exercício e cresce de forma aproximadamente linear com a carga e a frequência cardíaca. A de 0 a 10 (CR10, de 1982) é uma escala de razão por categorias, aceita decimais e é a mais usada para dispneia e fadiga de pernas. Não existe fórmula para converter uma na outra: 15 na escala de 6 a 20 não equivale a 7,5 na de 0 a 10.
O que é a escala de Borg modificada?
No Brasil, 'escala de Borg modificada' quase sempre se refere à versão de 0 a 10 aplicada à falta de ar, derivada da CR10. É a escala que as diretrizes da American Thoracic Society de 2002 indicam para registrar a dispneia e a fadiga antes e depois do teste de caminhada de 6 minutos. Como o nome varia entre serviços, o registro deve trazer o intervalo da escala usada (0 a 10 ou 6 a 20), e não só 'Borg'.
Como interpretar a escala de Borg de 6 a 20?
As diretrizes do ACSM (10ª edição, 2018) tratam 9 a 11 como esforço leve, 12 a 13 como moderado, 14 a 17 como vigoroso e 18 a 20 como próximo do máximo. Num estudo com 2.560 pessoas (Scherr e colaboradores, 2013), o limiar de lactato ficou em torno de 10,8 e o limiar anaeróbio individual em torno de 13,6, com variação de quase 2 pontos para cada lado. Por isso a escala orienta a intensidade, mas deve ser lida junto com a frequência cardíaca, a saturação e o que você observa.
Posso imprimir a escala de Borg para usar na clínica?
As duas escalas são marcas registradas, e as versões oficiais em português do Brasil são distribuídas sob licença pela Borg Perception, a empresa sueca que detém os direitos. A licença proíbe alterar o texto da escala e exige a linha de direitos autorais em publicações. Antes de imprimir ou de colocar a escala num material da clínica, confira as condições no site da empresa.

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