Existe uma forma muito comum de definir o preço da sessão de fisioterapia: perguntar para um colega quanto ele cobra e usar o mesmo número — talvez com um pequeno ajuste para mais ou para menos.
Parece razoável. Mas tem um problema fundamental: o colega pode estar cobrando pouco. Pode ter custos completamente diferentes dos seus. Pode atender num bairro diferente, com um perfil de paciente diferente, numa especialidade diferente.
Você não está copiando um preço — está copiando uma decisão que foi tomada com base em variáveis que não são as suas.
O que o preço da sessão precisa cobrir
Antes de pensar no número, é necessário entender do que ele é composto. O preço de uma sessão não é o que você quer ganhar por hora — é a soma de tudo que precisa entrar para que a operação funcione, mais o que você precisa levar para casa.
Custos diretos por sessão
Esses são os gastos que existem porque você atendeu aquele paciente:
- Material de uso (luvas, lençol descartável, gel, fita, eletrodos): em média R$ 8 a R$ 15 por atendimento dependendo dos procedimentos
- Desgaste de equipamentos: se você usa aparelhos de eletroterapia, ultrassom ou similares, eles têm vida útil. Uma forma simples de calcular é dividir o custo de aquisição pelo número estimado de atendimentos ao longo da vida útil do equipamento.
Custos fixos rateados por sessão
Esses custos existem independente de quantas sessões você realizar no mês, mas precisam ser cobertos por elas:
- Aluguel ou rateio de sala
- Contribuição ao CREFITO
- Impostos sobre receita (DAS MEI ou Simples Nacional)
- Internet, celular, softwares
- Seguro profissional, se você tiver
Para calcular o rateio: some todos os custos fixos mensais e divida pelo número de sessões que você realiza por mês. Se seus custos fixos somam R$ 1.800 e você faz 80 sessões, cada sessão precisa cobrir R$ 22,50 só de custo fixo.
O custo que ninguém coloca na conta
Existe um item que raramente aparece quando fisioterapeutas calculam preço: as horas que você trabalha mas não cobram.
Responder mensagens de agendamento. Enviar lembretes. Preencher documentação. Estudar casos. Deslocamento entre consultório e domicílio. Manutenção do espaço.
Um fisioterapeuta autônomo gasta em média 30 a 40% do seu tempo de trabalho em atividades que não são atendimento direto. Se você trabalha 8 horas por dia mas só atende por 5 delas, seu preço real precisa cobrir as 8 — não as 5.
A remuneração que você merece
Depois de cobrir todos os custos, o que sobra precisa ser suficiente para:
- Seu pró-labore (o equivalente ao salário)
- Previdência social (que o autônomo precisa contribuir por conta própria)
- Reserva para férias e períodos de baixa (meses com menos pacientes existem — julho e janeiro costumam ser mais fracos)
- Reinvestimento no negócio (novos equipamentos, cursos, melhorias no espaço)
Quem não considera esses itens na precificação acaba trabalhando sem férias, sem previdência e sem margem para crescer.
Como montar a conta na prática
Um exemplo concreto com números conservadores:
| Item | Valor mensal |
|---|---|
| Aluguel de sala (meio período) | R$ 1.000 |
| CREFITO + impostos | R$ 300 |
| Material clínico | R$ 200 |
| Celular, internet, softwares | R$ 150 |
| Total de custos | R$ 1.650 |
Com 80 sessões por mês: R$ 1.650 ÷ 80 = R$ 20,63 de custo por sessão
Remuneração desejada: R$ 6.000 líquido por mês R$ 6.000 ÷ 80 = R$ 75,00 por sessão para remuneração
Preço mínimo para esse cenário: R$ 95,63 por sessão
Arredondando: R$ 100,00 é o piso real. Qualquer valor abaixo disso, nesse cenário, significa que você está subsidiando o atendimento do paciente — cobrindo o déficit com trabalho invisível ou deixando de lado previdência e reservas.
O que a especialidade muda nessa conta
Especialização não é só prestígio — é dado de precificação.
Um fisioterapeuta com especialização reconhecida em neurologia, pediátrica, uroginecológica ou esportiva atende casos que outros profissionais não conseguem resolver. Isso cria uma demanda específica e reduz a sensibilidade do paciente ao preço.
O paciente que precisa de fisioterapia pélvica pós-parto não está comparando você com qualquer fisioterapeuta — está comparando com os poucos profissionais que fazem isso na sua cidade. O contexto de decisão é completamente diferente.
Isso não significa cobrar qualquer valor. Significa que o teto do mercado para especialistas é mais alto — e que cobrar igual ao generalista é uma escolha, não uma obrigação.
Quando e como reajustar
A dificuldade de reajustar preço é principalmente psicológica. A conta é simples: inflação corrói o poder do preço fixo todo mês. Um valor que fazia sentido em 2023 provavelmente não faz mais em 2026.
Quando reajustar: quando seus custos aumentaram e a margem encolheu, quando você passou por uma especialização relevante, ou simplesmente quando passou mais de 12 meses sem revisão.
Como comunicar: a maioria dos pacientes aceita bem um reajuste quando comunicado com antecedência e de forma direta. “A partir do mês que vem, o valor da sessão vai ser R$ X” — sem justificativas excessivas, sem pedido de desculpas. Preço é uma decisão de negócio, não um assunto emocional.
Quanto reajustar: no mínimo o equivalente à inflação do período. Menos do que isso é uma redução real de preço disfarçada de reajuste.
O sinal de que o preço está errado
Existe um indicador simples de que você está cobrando abaixo do valor correto: quando nenhum paciente questiona o preço.
Parece contra-intuitivo. Mas num mercado saudável, uma pequena parte dos contatos vai achar caro e optar por outro profissional. Se isso nunca acontece, o preço está tão baixo que nem é considerado um critério de decisão — todo mundo aceita porque parece barato.
Isso não significa que você deve cobrar o máximo possível. Significa que a ausência de qualquer resistência de preço é um sinal de que existe espaço para ajuste.
O outro sinal: se você está sempre cheio, sem lista de espera e sem espaço para novos pacientes, e ainda assim com o mesmo preço há anos — você está deixando valor na mesa. Demanda alta com preço estático é a combinação que mais prejudica o crescimento financeiro do autônomo.
Para tomar decisões de preço com base em dados reais — não em intuição — você precisa saber quanto fatura por serviço, qual é a taxa de falta por faixa de preço e como o financeiro se comporta ao longo do tempo. O Clinvo entrega essa visibilidade sem planilha. Testar grátis por 14 dias.