A situação é familiar: você atende uma paciente que trocou os pés e quase caiu descendo as escadas. Registra “equilíbrio diminuído, risco de queda presente” — mas sem um número, esse risco é invisível: para o médico que encaminhou, para a família que pergunta, e para você mesmo que quer saber se o tratamento está funcionando.
O Timed Up and Go resolve isso em dois minutos, com uma cadeira e um cronômetro.
O que o TUG mede — e o que não mede
O TUG cronometra uma sequência de mobilidade funcional: levantar → caminhar → girar → retornar → sentar. Esse ciclo integra controle postural, equilíbrio nas transições, velocidade de marcha e planejamento do giro — exatamente o que falha nas quedas domiciliares mais comuns.
O que ele não avalia em detalhe: equilíbrio estático item a item, força segmentada, impacto da dupla tarefa (para isso existem variações do próprio teste). O TUG diz que há problema de mobilidade e que risco existe; a Escala de Berg diz em qual tarefa específica o paciente perde mais pontos.
Como aplicar
Material necessário:
- Cadeira com apoio de braços (altura do assento entre 44 e 47 cm)
- Fita adesiva no chão marcando a linha dos 3 metros
- Cronômetro
Protocolo:
- O paciente senta com as costas encostadas no assento e as mãos apoiadas nas coxas ou nos braços da cadeira.
- Realizar uma tentativa de familiarização, sem cronometrar.
- Instrução padronizada: “Quando eu disser VAI, levante, caminhe até a linha, gire e volte para sentar. Caminhe no seu ritmo normal, com segurança.”
- Iniciar o cronômetro ao sinal de “VAI”; parar quando o paciente sentar completamente.
- Aplicar 2 a 3 repetições e registrar a melhor tentativa — ou a média. Definir um critério e mantê-lo nas reavaliações.
Pontos críticos:
- Se o paciente usa dispositivo auxiliar (bengala, andador), aplicar com o dispositivo e registrar qual — a comparação entre sessões precisa usar o mesmo setup.
- Calçado habitual, não descalço.
- Não demonstrar nem descrever o lado do giro — deixar o paciente escolher naturalmente.
- Interromper apenas por segurança; registrar o motivo se a tentativa for interrompida.
Valores normativos por faixa etária
Referências: Bohannon (2006) e Bischoff e colaboradores (2003), em idosos comunitários independentes.
| Faixa etária | Referência (segundos) |
|---|---|
| 60–69 anos | 8 a 9 s |
| 70–79 anos | 9 a 10 s |
| 80–89 anos | 10 a 12 s |
| 90 anos ou mais | 12 a 15 s |
Esses valores representam idosos saudáveis e independentes. Pacientes com condição neurológica, dor articular, amputação ou descondicionamento grave costumam ter tempos significativamente maiores — e nesses casos a referência é a própria evolução do paciente, não a norma da população saudável.
Pontos de corte para risco de queda
| Tempo | Interpretação |
|---|---|
| ≤ 12 s | Mobilidade funcional preservada; independência comunitária |
| 13 a 19 s | Zona de alerta — investigar marcha, equilíbrio e ambiente domiciliar |
| 20 a 29 s | Risco elevado — limitação em atividades externas; necessidade de auxílio |
| ≥ 30 s | Alta dependência — dificuldade nas transferências e na mobilidade domiciliar |
O corte mais citado na literatura para idosos comunitários é 13,5 segundos (Shumway-Cook, 2000). Na prática, qualquer resultado acima de 12 segundos merece investigação mais detalhada. O número não é diagnóstico — é o sinal de que algo precisa de atenção.
TUG em condições neurológicas
Na doença de Parkinson e no pós-AVC, os valores normativos para idosos saudáveis não se aplicam diretamente. O que importa é a evolução do próprio paciente e o contexto funcional.
Doença de Parkinson: tempos acima de 11,5 segundos foram associados a maior risco de queda em estudos específicos. A variabilidade entre tentativas e o custo da dupla tarefa tendem a ser indicadores mais sensíveis do que o tempo isolado — revelam quanto a atenção divide o controle motor.
Pós-AVC: o TUG correlaciona-se com velocidade de marcha confortável e com o índice de Barthel e MIF. É útil para acompanhar a recuperação funcional, mas precisa ser lido junto com outros instrumentos: esses capturam o quadro de independência que o TUG isolado não cobre.
A versão com dupla tarefa
O TUG Cognitivo (contagem regressiva a partir de 20) e o TUG Manual (carregar um copo d’água) revelam o custo da atenção dividida: quando o paciente precisa pensar para andar, é sinal de vulnerabilidade que o TUG simples não capta.
O que registrar: TUG simples, TUG dupla tarefa e a diferença entre os dois. Uma diferença maior que 4 a 5 segundos já indica risco relevante. Pacientes com demência, doença de Parkinson e sequela de AVC são os que mais se beneficiam dessa variação.
Do número ao prontuário
TUG 18 s na primeira sessão é um dado. TUG 18 s → 14 s → 11 s ao longo de oito semanas é uma prova de evolução. Para que essa sequência apareça:
- Aplicar na avaliação inicial, com o mesmo protocolo, o mesmo setup e o mesmo momento da sessão (preferencialmente antes da sessão, não após exercício intenso).
- Reaplicar a cada 4 semanas ou em marcos do tratamento — não é necessário medir todo dia.
- Registrar: tempo em segundos, número de tentativas, dispositivo auxiliar (ou ausência), calçado e observações sobre a marcha ou o giro durante o teste.
- Combinar com a Escala de Berg para triangular: o TUG diz se a mobilidade geral melhorou; a Berg aponta em quais tarefas específicas o ganho ocorreu.
“TUG 18 s com andador na avaliação → 13 s com bengala após 6 semanas, custo da dupla tarefa de 4,2 s para 2,1 s” é o tipo de registro que sustenta o relatório para o geriatra, convence a família e mostra ao paciente que o tratamento está funcionando.
Leia também:
- Escala de Berg de equilíbrio: os 14 itens, pontuação e risco de queda no idoso
- Barthel ou MIF: qual escala usar para medir independência funcional (e quando cada uma engana)
- Escalas e instrumentos de avaliação na fisioterapia: como medir a evolução em vez de achar que o paciente melhorou
- Fisioterapia geriátrica: o nicho que não para de crescer e como se posicionar em 2026
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